coração amacia
ama cria cora
vermelho
macio e velho
dentro do peito
doce suave leito
leite materno cuado
eu, acuada, dentro
chove infinitamente
chora infinitamente
pertence e sente o calor
a quentura dentro
da casa que é teu beijo
vermelho e quente
latente, dentro de mim
escorre penerado
escapa a morada
avantajado
feito peito de pombo
rebento corajoso,
tombo
tomo voo lento
e amoroso
pra dentro
dentro dentro alento
de tu, carícia minha:
andorinha
(não se faz verão sozinha)
domingo, 30 de abril de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Tristeza
Trezentas farpas encravadas na face solar de meus pés.
Lágrimas banham meu corpo doce e sanguíneo.
Pequenos buracos nas minhas artérias.
Pequenos coágulos nas minhas veias.
Piso ainda em solo vítreo e quebradiço e passeando pela minha tristeza, aguento os cacos, tão finos, que furam meus pés.
Violinos me perfuram, me penetram inteira.
Sou já feita de madeira maciça e musical.
Tenho um lago negro morando em mim.
Sei que sou sozinha na minha solidão.
Sei que minha dor me pertence e que mesmo assim meus olhos e minhas garras de gavião lutam no escuro, inúteis.
Sei ser inteira e despedaçada.
Sei ser doce e sei ser salgada.
Sou feita da única matéria que me seria possível e ainda estou aprendendo a nadar.
Tece violenta a sua fúria sobre a minha pele.
Toca delicada a minha vulva e se despede de mim.
Tristeza: deixo-te ficar a noite, mas de manhã não quero ver-te por perto.Vá com o nascer do sol e leva contigo teus cristais.
Lágrimas banham meu corpo doce e sanguíneo.
Pequenos buracos nas minhas artérias.
Pequenos coágulos nas minhas veias.
Piso ainda em solo vítreo e quebradiço e passeando pela minha tristeza, aguento os cacos, tão finos, que furam meus pés.
Violinos me perfuram, me penetram inteira.
Sou já feita de madeira maciça e musical.
Tenho um lago negro morando em mim.
Sei que sou sozinha na minha solidão.
Sei que minha dor me pertence e que mesmo assim meus olhos e minhas garras de gavião lutam no escuro, inúteis.
Sei ser inteira e despedaçada.
Sei ser doce e sei ser salgada.
Sou feita da única matéria que me seria possível e ainda estou aprendendo a nadar.
Tece violenta a sua fúria sobre a minha pele.
Toca delicada a minha vulva e se despede de mim.
Tristeza: deixo-te ficar a noite, mas de manhã não quero ver-te por perto.Vá com o nascer do sol e leva contigo teus cristais.
sexta-feira, 17 de março de 2017
minhas mãos malhadas de medo
escorre a matéria do tempo por entre os dedos
tua sorte (ou azar): é cedo
para dizer sobre nós
e pois
e logo
aqui e lá
desata os nós dos meus dedos
me ensina a ver com teus ouvidos
tens nas mãos punhados de cheiros
caminhos, teias, tragos, cabelos
tua boca esconde segredos
de outras vidas
outros ocres
me contas apenas a
pluma
que escorrega dos teus lábios
pueris
é pouca a massa da vida
se não a luz que atravessa a
pele
e vem descansar nos teus tesos
pelos
toca o teu cheiro com os dedos
o umbigo do umbigo do umbigo
e o medo?
escorre a matéria do tempo por entre os dedos
tua sorte (ou azar): é cedo
para dizer sobre nós
e pois
e logo
aqui e lá
desata os nós dos meus dedos
me ensina a ver com teus ouvidos
tens nas mãos punhados de cheiros
caminhos, teias, tragos, cabelos
tua boca esconde segredos
de outras vidas
outros ocres
me contas apenas a
pluma
que escorrega dos teus lábios
pueris
é pouca a massa da vida
se não a luz que atravessa a
pele
e vem descansar nos teus tesos
pelos
toca o teu cheiro com os dedos
o umbigo do umbigo do umbigo
e o medo?
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Mais uma translação se completa
Em alguns dias
(catorze para ser exata)
E agora, paciente, me enxergo inteira
Fragmentada
De amores
Amacio a saudade com cheiro de flor
Como se dobrasse um lençol recém lavado
E, trocando o jogo de cama,
Durmo tranquila ao som das molas retorcidas
Debaixo do peso do meu corpo
Quero ficar bem quieta
Procurar refúgio nas montanhas geladas
Anseio pelo lugar do nada
do vazio
do silêncio
Lá onde ninguém vive
ninguém pisa
ninguém fala
Mas gostaria de ir com você
E compartilhar minha solidão à dois
Te contar segredos baixinho
Dormir no balanço dos teus carinhos
Olhar nos teus olhos verdes de enigma
Tu que é semente
É preciso compreender a linguagem das plantas
O amor precisa cuidado para germinar
Em alguns dias
(catorze para ser exata)
E agora, paciente, me enxergo inteira
Fragmentada
De amores
Amacio a saudade com cheiro de flor
Como se dobrasse um lençol recém lavado
E, trocando o jogo de cama,
Durmo tranquila ao som das molas retorcidas
Debaixo do peso do meu corpo
Quero ficar bem quieta
Procurar refúgio nas montanhas geladas
Anseio pelo lugar do nada
do vazio
do silêncio
Lá onde ninguém vive
ninguém pisa
ninguém fala
Mas gostaria de ir com você
E compartilhar minha solidão à dois
Te contar segredos baixinho
Dormir no balanço dos teus carinhos
Olhar nos teus olhos verdes de enigma
Tu que é semente
É preciso compreender a linguagem das plantas
O amor precisa cuidado para germinar
Se achegue cá, tatu
Que quero te ver bunito
Venha e traga frutas vermelhas ou roxas
Doces e suculentas
Pra encher as gengivas desse gozo fortificado
Pois traga também palavras bem selecionadas
E prepare a língua, meu amor
Que já anseiam meus ouvidos
Por tua voz grave ruborizada em versos roubados
De caroços alheios
Canta o cântico dos enamorados
Me encanta com a melodia do fundo
Do poço primevo
Onde fervem, pois, os teus versinhos pequetitos
Milimétricos
E depois ainda,
À conta-gotas
Sussurra-me nas orelhas eriçadas
A medida – fonte abrupta – do teu desejo
Que quero te ver bunito
Venha e traga frutas vermelhas ou roxas
Doces e suculentas
Pra encher as gengivas desse gozo fortificado
Pois traga também palavras bem selecionadas
E prepare a língua, meu amor
Que já anseiam meus ouvidos
Por tua voz grave ruborizada em versos roubados
De caroços alheios
Canta o cântico dos enamorados
Me encanta com a melodia do fundo
Do poço primevo
Onde fervem, pois, os teus versinhos pequetitos
Milimétricos
E depois ainda,
À conta-gotas
Sussurra-me nas orelhas eriçadas
A medida – fonte abrupta – do teu desejo
domingo, 8 de janeiro de 2017
O fio do tempo que tece essa segunda puberdade
A comichão do amor em prantos a arder a pele
A erupção telúrica dos teus afagos
Parcas moiras, venham cá moirinhas
Me façam um chamego enquanto preparo meu sono
Cozinho meus sonhos em banho-maria
Atravesso a pouca idade com o peito inchado
Tenho espinhas muito novas na testa
Elas que só agora vem povoar a minha fronte constelada
E já tão cedo canso da minha cara
Peço piedade ao meu corpo para que não me traia
Para que dele apenas cresçam sementes
Filhos-bananeiras
Do meu útero pequetito: frutos avermelhados
O milagre grotesco
Tece moirinha
Tece o meu amor em carne viva
Tece feroz a paixão que encharca os pelos púbios
Dentro das conchas uterinas dormem
Silêncios encapsulados em suspiros
Pois quando brotam da flor em prece
É palavra alagada e grávida
Dos meus tenros, férteis, anos
A comichão do amor em prantos a arder a pele
A erupção telúrica dos teus afagos
Parcas moiras, venham cá moirinhas
Me façam um chamego enquanto preparo meu sono
Cozinho meus sonhos em banho-maria
Atravesso a pouca idade com o peito inchado
Tenho espinhas muito novas na testa
Elas que só agora vem povoar a minha fronte constelada
E já tão cedo canso da minha cara
Peço piedade ao meu corpo para que não me traia
Para que dele apenas cresçam sementes
Filhos-bananeiras
Do meu útero pequetito: frutos avermelhados
O milagre grotesco
Tece moirinha
Tece o meu amor em carne viva
Tece feroz a paixão que encharca os pelos púbios
Dentro das conchas uterinas dormem
Silêncios encapsulados em suspiros
Pois quando brotam da flor em prece
É palavra alagada e grávida
Dos meus tenros, férteis, anos
Que coragem a das pedras em dizer o indizível
Traduzir o magma que corre nas veias
O pulso virulento que ritma os descontroles
Preciso captar cada relevo da sua face
Com minhas antenas atentas
É doce o cheiro das tuas bochechas
Coroadas do mel da juventude
Abre tuas portas que eu abro as de cá
E vejamos quem ri por último
A carapaça que usas esconde tuas pérolas
Um mar que atravessa os mundos
Expande tanto que escapa o seio
Dos teus olhares
E se derrama no céu aroxeado
Dos sabores do fim da tarde
Se as nuvens fossem mais próximas
De nossas cabeças balonis
Então escutariamos as músicas das chuvas
Antes mesmo de nascerem
Chorariam depois em nossos ventres
Inundando as incertezas tolas que cobrem
A relva das nossas peles
E só quando o fio que sai do meu côncavo
Toca o seu convexo espelhado
Numa brincadeira de beijinhos de esquimós franceses
Aí sim,
o intraduzível impalavrável impensável
Pula da boca ao coração feito perereca assustadiça
Faz parte...
Traduzir o magma que corre nas veias
O pulso virulento que ritma os descontroles
Preciso captar cada relevo da sua face
Com minhas antenas atentas
É doce o cheiro das tuas bochechas
Coroadas do mel da juventude
Abre tuas portas que eu abro as de cá
E vejamos quem ri por último
A carapaça que usas esconde tuas pérolas
Um mar que atravessa os mundos
Expande tanto que escapa o seio
Dos teus olhares
E se derrama no céu aroxeado
Dos sabores do fim da tarde
Se as nuvens fossem mais próximas
De nossas cabeças balonis
Então escutariamos as músicas das chuvas
Antes mesmo de nascerem
Chorariam depois em nossos ventres
Inundando as incertezas tolas que cobrem
A relva das nossas peles
E só quando o fio que sai do meu côncavo
Toca o seu convexo espelhado
Numa brincadeira de beijinhos de esquimós franceses
Aí sim,
o intraduzível impalavrável impensável
Pula da boca ao coração feito perereca assustadiça
Faz parte...
Três olhos
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas
Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento
Oito pés descalços cor de abóbora
Doze mãos aflitas descansantes
Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos
Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas
Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento
Oito pés descalços cor de abóbora
Doze mãos aflitas descansantes
Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos
Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua
domingo, 1 de janeiro de 2017
Enche de ternura a minha boca
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Como os meninos-vênus nas canções da bjork
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Um poema-vômito não é flor que se cheire
Cada vez que fico mais só
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim
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