sexta-feira, 17 de março de 2017

minhas mãos malhadas de medo
escorre a matéria do tempo por entre os dedos
tua sorte (ou azar): é cedo
para dizer sobre nós
e pois
e logo
aqui e lá
desata os nós dos meus dedos
me ensina a ver com teus ouvidos

tens nas mãos punhados de cheiros
caminhos, teias, tragos, cabelos
tua boca esconde segredos
de outras vidas
outros ocres

me contas apenas a
pluma
que escorrega dos teus lábios
pueris
é pouca a massa da vida
se não a luz que atravessa a
pele
e vem descansar nos teus tesos
pelos

toca o teu cheiro com os dedos
o umbigo do umbigo do umbigo
e o medo?

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Mais uma translação se completa
Em alguns dias
(catorze para ser exata)
E agora, paciente, me enxergo inteira
Fragmentada
De amores

Amacio a saudade com cheiro de flor
Como se dobrasse um lençol recém lavado
E, trocando o jogo de cama,
Durmo tranquila ao som das molas retorcidas
Debaixo do peso do meu corpo

Quero ficar bem quieta
Procurar refúgio nas montanhas geladas
Anseio pelo lugar do nada
                                do vazio
                                do silêncio
Lá onde ninguém vive
               ninguém pisa
               ninguém fala

Mas gostaria de ir com você
E compartilhar minha solidão à dois
Te contar segredos baixinho
Dormir no balanço dos teus carinhos
Olhar nos teus olhos verdes de enigma

Tu que é semente

É preciso compreender a linguagem das plantas
O amor precisa cuidado para germinar
Se achegue cá, tatu
Que quero te ver bunito
Venha e traga frutas vermelhas ou roxas
Doces e suculentas
Pra encher as gengivas desse gozo fortificado
Pois traga também palavras bem selecionadas
E prepare a língua, meu amor
Que já anseiam meus ouvidos  
Por tua voz grave ruborizada em versos roubados
De caroços alheios
Canta o cântico dos enamorados
Me encanta com a melodia do fundo
Do poço primevo  
Onde fervem, pois, os teus versinhos pequetitos
Milimétricos  
E depois ainda,  
À conta-gotas
Sussurra-me nas orelhas eriçadas
A medida – fonte abrupta – do teu desejo

domingo, 8 de janeiro de 2017

O fio do tempo que tece essa segunda puberdade
A comichão do amor em prantos a arder a pele
A erupção telúrica dos teus afagos
Parcas moiras, venham cá moirinhas
Me façam um chamego enquanto preparo meu sono
Cozinho meus sonhos em banho-maria
Atravesso a pouca idade com o peito inchado
Tenho espinhas muito novas na testa
Elas que só agora vem povoar a minha fronte constelada
E já tão cedo canso da minha cara
Peço piedade ao meu corpo para que não me traia
Para que dele apenas cresçam sementes
Filhos-bananeiras
Do meu útero pequetito: frutos avermelhados
O milagre grotesco
Tece moirinha
Tece o meu amor em carne viva
Tece feroz a paixão que encharca os pelos púbios
Dentro das conchas uterinas dormem
Silêncios encapsulados em suspiros
Pois quando brotam da flor em prece
É palavra alagada e grávida
Dos meus tenros, férteis, anos
Que coragem a das pedras em dizer o indizível
Traduzir o magma que corre nas veias
O pulso virulento que ritma os descontroles

Preciso captar cada relevo da sua face
Com minhas antenas atentas
É doce o cheiro das tuas bochechas
Coroadas do mel da juventude

Abre tuas portas que eu abro as de cá
E vejamos quem ri por último

A carapaça que usas esconde tuas pérolas
Um mar que atravessa os mundos
Expande tanto que escapa o seio
Dos teus olhares
E se derrama no céu aroxeado
Dos sabores do fim da tarde

Se as nuvens fossem mais próximas
De nossas cabeças balonis
Então escutariamos as músicas das chuvas
Antes mesmo de nascerem
Chorariam depois em nossos ventres
Inundando as incertezas tolas que cobrem
A relva das nossas peles

E só quando o fio que sai do meu côncavo
Toca o seu convexo espelhado
Numa brincadeira de beijinhos de esquimós franceses
Aí sim,
o intraduzível impalavrável impensável
Pula da boca ao coração feito perereca assustadiça

Faz parte...
Três olhos
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas

Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento

Oito pés descalços cor de abóbora

Doze mãos aflitas descansantes

Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos

Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua

domingo, 1 de janeiro de 2017

Enche de ternura a minha boca
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Como os meninos-vênus nas canções da bjork
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se  toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um poema-vômito não é flor que se cheire

Cada vez que fico mais só
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

É quente
O céu é azul de uma profundeza sublime
Chego em casa com a pele fervendo
E ainda sou criança

As árvores absorvem as sombras
E meditam sobre o pousar
Das coisas em suas
Existências translúcidas

As pernas caminham
E não pensam
São músculo e sabem para onde vão

O tempo avança e retrocede
Eu envelheço dentro de um túnel
E você,
Feito um mar onde mergulho e
Encaro a imensidão absurda,
O azul revolto e calmo e
A chance de se perder,
Você atravessa o túnel comigo

A cabeça esfria e o olhar vacila
Mas a energia dissipada no ar
Escancara os interiores abissais
Sei no que te olho que te gosto demais

O céu e o mar se fundem
Irmãos e amantes
Derramam a leveza e a expansão
A incrível capacidade de transmutar-se

Feito um caranguejo
Feito um escorpião



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Viver é caos
Me perco na minha desordem existencial
Sei por algum motivo fundo que sou
Quem devo ser
Quem já sou
Tá nas estrelas
A vontade de virar lama
Não é preciso definir ou entender
Mas é preciso ser sincera
Com o turbilhão luminoso que se emaranha dentro de mim
Minha cara cada vez mais estranha diante do espelho
Estou mudando?
Pra onde seguir?
O que quero?
O que me faz sentir a criança que me habita?
É preciso colocar pra fora em corpo em traço em som
A liberdade a melancolia
Meus pulsos impulsos expulsos de mim em cor
Me reconheço no outro e me misturo com ele
E de repente
Me descolo de mim
Eu sou
Eu sou o sol indomável
Eu sou o espírito livre
Eu sou o berro e o riso mais fundo que há
Que sai da minha garganta arranhando
Extravasando tudo
E chega ao mundo grunhido
E então percorre as noites tilintantes
Escapando de mim risonho
Sonha a cabeça dos dormintes
E pinga da pia do céu iluminado de raio
Serena é a chuva que cai de fininho
Eu sou tudo e todos
Eu não sou nada
E não é isso mesmo ser deus?