Que coragem a das pedras em dizer o indizível
Traduzir o magma que corre nas veias
O pulso virulento que ritma os descontroles
Preciso captar cada relevo da sua face
Com minhas antenas atentas
É doce o cheiro das tuas bochechas
Coroadas do mel da juventude
Abre tuas portas que eu abro as de cá
E vejamos quem ri por último
A carapaça que usas esconde tuas pérolas
Um mar que atravessa os mundos
Expande tanto que escapa o seio
Dos teus olhares
E se derrama no céu aroxeado
Dos sabores do fim da tarde
Se as nuvens fossem mais próximas
De nossas cabeças balonis
Então escutariamos as músicas das chuvas
Antes mesmo de nascerem
Chorariam depois em nossos ventres
Inundando as incertezas tolas que cobrem
A relva das nossas peles
E só quando o fio que sai do meu côncavo
Toca o seu convexo espelhado
Numa brincadeira de beijinhos de esquimós franceses
Aí sim,
o intraduzível impalavrável impensável
Pula da boca ao coração feito perereca assustadiça
Faz parte...
domingo, 8 de janeiro de 2017
Três olhos
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas
Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento
Oito pés descalços cor de abóbora
Doze mãos aflitas descansantes
Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos
Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas
Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento
Oito pés descalços cor de abóbora
Doze mãos aflitas descansantes
Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos
Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua
domingo, 1 de janeiro de 2017
Enche de ternura a minha boca
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Como os meninos-vênus nas canções da bjork
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Um poema-vômito não é flor que se cheire
Cada vez que fico mais só
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
É quente
O céu é azul de uma profundeza sublime
Chego em casa com a pele fervendo
E ainda sou criança
As árvores absorvem as sombras
E meditam sobre o pousar
Das coisas em suas
Existências translúcidas
As pernas caminham
E não pensam
São músculo e sabem para onde vão
O tempo avança e retrocede
Eu envelheço dentro de um túnel
E você,
Feito um mar onde mergulho e
Encaro a imensidão absurda,
O azul revolto e calmo e
A chance de se perder,
Você atravessa o túnel comigo
A cabeça esfria e o olhar vacila
Mas a energia dissipada no ar
Escancara os interiores abissais
Sei no que te olho que te gosto demais
O céu e o mar se fundem
Irmãos e amantes
Derramam a leveza e a expansão
A incrível capacidade de transmutar-se
Feito um caranguejo
Feito um escorpião
O céu é azul de uma profundeza sublime
Chego em casa com a pele fervendo
E ainda sou criança
As árvores absorvem as sombras
E meditam sobre o pousar
Das coisas em suas
Existências translúcidas
As pernas caminham
E não pensam
São músculo e sabem para onde vão
O tempo avança e retrocede
Eu envelheço dentro de um túnel
E você,
Feito um mar onde mergulho e
Encaro a imensidão absurda,
O azul revolto e calmo e
A chance de se perder,
Você atravessa o túnel comigo
A cabeça esfria e o olhar vacila
Mas a energia dissipada no ar
Escancara os interiores abissais
Sei no que te olho que te gosto demais
O céu e o mar se fundem
Irmãos e amantes
Derramam a leveza e a expansão
A incrível capacidade de transmutar-se
Feito um caranguejo
Feito um escorpião
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Viver é caos
Me perco na minha desordem existencial
Sei por algum motivo fundo que sou
Quem devo ser
Quem já sou
Tá nas estrelas
A vontade de virar lama
Não é preciso definir ou entender
Mas é preciso ser sincera
Com o turbilhão luminoso que se emaranha dentro de mim
Minha cara cada vez mais estranha diante do espelho
Estou mudando?
Pra onde seguir?
O que quero?
O que me faz sentir a criança que me habita?
É preciso colocar pra fora em corpo em traço em som
A liberdade a melancolia
Meus pulsos impulsos expulsos de mim em cor
Me reconheço no outro e me misturo com ele
E de repente
Me descolo de mim
Eu sou
Eu sou o sol indomável
Eu sou o espírito livre
Eu sou o berro e o riso mais fundo que há
Que sai da minha garganta arranhando
Extravasando tudo
E chega ao mundo grunhido
E então percorre as noites tilintantes
Escapando de mim risonho
Sonha a cabeça dos dormintes
E pinga da pia do céu iluminado de raio
Serena é a chuva que cai de fininho
Eu sou tudo e todos
Eu não sou nada
E não é isso mesmo ser deus?
Me perco na minha desordem existencial
Sei por algum motivo fundo que sou
Quem devo ser
Quem já sou
Tá nas estrelas
A vontade de virar lama
Não é preciso definir ou entender
Mas é preciso ser sincera
Com o turbilhão luminoso que se emaranha dentro de mim
Minha cara cada vez mais estranha diante do espelho
Estou mudando?
Pra onde seguir?
O que quero?
O que me faz sentir a criança que me habita?
É preciso colocar pra fora em corpo em traço em som
A liberdade a melancolia
Meus pulsos impulsos expulsos de mim em cor
Me reconheço no outro e me misturo com ele
E de repente
Me descolo de mim
Eu sou
Eu sou o sol indomável
Eu sou o espírito livre
Eu sou o berro e o riso mais fundo que há
Que sai da minha garganta arranhando
Extravasando tudo
E chega ao mundo grunhido
E então percorre as noites tilintantes
Escapando de mim risonho
Sonha a cabeça dos dormintes
E pinga da pia do céu iluminado de raio
Serena é a chuva que cai de fininho
Eu sou tudo e todos
Eu não sou nada
E não é isso mesmo ser deus?
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Desbravo meu corpo com o teu
Descubro a flor que sou e
Desabrocho em tuas mãos
Desterra-se o solo que contém meus pés
Descentraliza o eixo que me mantém sobre as pernas sem tombar
Tremo
Caminho sobre o desconhecido
Desconheço o caminho das tuas léguas
E por isso mesmo exploro o território das tuas pintas
Até pintar tua cama de vermelho em sonho
Desatina, flor
Enlouquece as minhas beiradas
Desmancha as minhas certezas tolas
Faz do meu céu da boca o topo do teu desejo
Com a tua linguística transbordante
Dos des que desarrumam meu cabelo
Instaurando a desordem deliciosa do transe
Descubro a flor que sou e
Desabrocho em tuas mãos
Desterra-se o solo que contém meus pés
Descentraliza o eixo que me mantém sobre as pernas sem tombar
Tremo
Caminho sobre o desconhecido
Desconheço o caminho das tuas léguas
E por isso mesmo exploro o território das tuas pintas
Até pintar tua cama de vermelho em sonho
Desatina, flor
Enlouquece as minhas beiradas
Desmancha as minhas certezas tolas
Faz do meu céu da boca o topo do teu desejo
Com a tua linguística transbordante
Dos des que desarrumam meu cabelo
Instaurando a desordem deliciosa do transe
domingo, 9 de outubro de 2016
A todos os afetos nutridos
Por mais que confusos
Por mais que atados ao medo
Saber desatar os nós que embrulham o estômago
E me fazem enganar a mim mesma
Ando em círculos
Te procuro e me perco
Perdoa
Se te maltratei foi porque me maltratei primeiro
E nenhum de nós merecia
Ainda lembro de um quarto rosado toda vez que escuto radiohead
E então eu danço
Não há mais nada que se possa fazer
Por mais que confusos
Por mais que atados ao medo
Saber desatar os nós que embrulham o estômago
E me fazem enganar a mim mesma
Ando em círculos
Te procuro e me perco
Perdoa
Se te maltratei foi porque me maltratei primeiro
E nenhum de nós merecia
Ainda lembro de um quarto rosado toda vez que escuto radiohead
E então eu danço
Não há mais nada que se possa fazer
sábado, 8 de outubro de 2016
De tudo que restou de mim
A inquietude das palavras trôpegas
Me move adiante aos mistérios sem fim
O universo é só um ponto engasgado na minha garganta
Tenho sede de intensidade
E um sossego interrompido de pressa
A ansiedade é uma hidra
Corta uma cabeça cresce outra
Ligar as constelações que brilham em mim
Tecer um manto de desejos
Pra me encolher nos dias chuvosos
A imaginação é maior que o cosmos
Navego numa jangada o hiper-espaço
Silencio e amorteço
Atravesso o avesso do mundo
Chego em lugar nenhum
E tiro um cochilo
A inquietude das palavras trôpegas
Me move adiante aos mistérios sem fim
O universo é só um ponto engasgado na minha garganta
Tenho sede de intensidade
E um sossego interrompido de pressa
A ansiedade é uma hidra
Corta uma cabeça cresce outra
Ligar as constelações que brilham em mim
Tecer um manto de desejos
Pra me encolher nos dias chuvosos
A imaginação é maior que o cosmos
Navego numa jangada o hiper-espaço
Silencio e amorteço
Atravesso o avesso do mundo
Chego em lugar nenhum
E tiro um cochilo
Adentro o espaço da sala
Cheia de caras alheias
Atravesso o fumo
Firmo o olhar em cada aresta
Presto atenção em uma história engraçada
Uma estranha consciência me atravessa
Esqueço minha cara
Só alcanço o outro e meus pés
Sapateio e dou risada
Solto palavras sem controle
Ouço o eco da minha voz e ensurdeço
Reino no vazio que me habita
Nenhuma lágrima escorre de mim
Emburreço
Endureço
Embruteço
Mas o corpo não esquece de dançar
Cheia de caras alheias
Atravesso o fumo
Firmo o olhar em cada aresta
Presto atenção em uma história engraçada
Uma estranha consciência me atravessa
Esqueço minha cara
Só alcanço o outro e meus pés
Sapateio e dou risada
Solto palavras sem controle
Ouço o eco da minha voz e ensurdeço
Reino no vazio que me habita
Nenhuma lágrima escorre de mim
Emburreço
Endureço
Embruteço
Mas o corpo não esquece de dançar
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