domingo, 1 de janeiro de 2017

Enche de ternura a minha boca
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Como os meninos-vênus nas canções da bjork
Quem diria que caberiam tantas pérolas na sua boca
Não é que a gente mente quando perguntam o que a gente ta pensando
Damos uma resposta evasiva
Em contramão do desejo de dizer exatamente o que se espera que diga
E é verdade
Era isso mesmo que você achou que eu estava pensando que eu estava pensando
Idéia loka
É estranho e incrível como se pode falar com o corpo sem dizer palavra alguma
É afrodite e eros em unidade
E como saber se já não se passaram nove anos
Enquanto te olhei dentro de teus cristais
E achei que poderia ser você por um segundo
Beijei tua boca com cheiro do meu sexo
É possível preencher os vazios esbranquiçados com carinhos
É possível atravessar a carapaça, a segunda pele, até a intimidade em carne viva e renovada
Se pudesse fazer um som feito o da cigarra
E te contar um conto romeno muito doido
Seria entender a borboleta que ainda é larva
E aceitar a seiva do silêncio
Teu corpo fino é mar aberto
Verde-água
Carmim
Estrela do mar
E do céu
Uma serpente que morde a cauda
É uma serpente que morde a cauda
Se passam nove anos
E volto pra casa num carro de fogo
O vento sussurra nos meus ouvidos os segredos da vida
É no limite do desconhecido que se  toca o próprio centro cardeal
Não há mais como se perder
Tento escrever um poema
E pulam da minha boca feito pererecas palavras precipitadas
Insanas para achar seu rumo nesse divagar
É lento como vestir os sapatos
Despir-se das roupas
E vesti-las novamente
É preciso se perder pra se encontrar é o que dizem

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um poema-vômito não é flor que se cheire

Cada vez que fico mais só
E me retraio pra dentro de meus suores e musgos
Quando eu entro no meu casulo, na minha casa
Meu corpo é minha casa
Quando eu toco meu umbigo com meu nariz
E entro dentro de mim pelo umbigo
E vejo meus órgãos vibrarem
Uma grande orquestra hormonal
E meus olhos observam meu estômago
Do lado de fora sou só uma bolinha de músculo contorcido
E se olhassem pra mim
Estranhariam
Mas ninguém olha
Então eu olho pra dentro do meu umbigo levemente sujo
Toco minhas cavidades internas com a língua
E provo da minha própria gosma
É uma delícia
Um pouco azedo no final
Mas no geral é bem gostoso
Cheiro meus fedores cor de abóbora
E dou um berro bem gritado
Que de tão bem berrado
Implodo
O quarto fica todo vomitado
De órgãos e peles e vozes
Uma gargalhada tremenda
Rebatendo pelas paredes
Até que canse e murche
É o fim

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

É quente
O céu é azul de uma profundeza sublime
Chego em casa com a pele fervendo
E ainda sou criança

As árvores absorvem as sombras
E meditam sobre o pousar
Das coisas em suas
Existências translúcidas

As pernas caminham
E não pensam
São músculo e sabem para onde vão

O tempo avança e retrocede
Eu envelheço dentro de um túnel
E você,
Feito um mar onde mergulho e
Encaro a imensidão absurda,
O azul revolto e calmo e
A chance de se perder,
Você atravessa o túnel comigo

A cabeça esfria e o olhar vacila
Mas a energia dissipada no ar
Escancara os interiores abissais
Sei no que te olho que te gosto demais

O céu e o mar se fundem
Irmãos e amantes
Derramam a leveza e a expansão
A incrível capacidade de transmutar-se

Feito um caranguejo
Feito um escorpião



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Viver é caos
Me perco na minha desordem existencial
Sei por algum motivo fundo que sou
Quem devo ser
Quem já sou
Tá nas estrelas
A vontade de virar lama
Não é preciso definir ou entender
Mas é preciso ser sincera
Com o turbilhão luminoso que se emaranha dentro de mim
Minha cara cada vez mais estranha diante do espelho
Estou mudando?
Pra onde seguir?
O que quero?
O que me faz sentir a criança que me habita?
É preciso colocar pra fora em corpo em traço em som
A liberdade a melancolia
Meus pulsos impulsos expulsos de mim em cor
Me reconheço no outro e me misturo com ele
E de repente
Me descolo de mim
Eu sou
Eu sou o sol indomável
Eu sou o espírito livre
Eu sou o berro e o riso mais fundo que há
Que sai da minha garganta arranhando
Extravasando tudo
E chega ao mundo grunhido
E então percorre as noites tilintantes
Escapando de mim risonho
Sonha a cabeça dos dormintes
E pinga da pia do céu iluminado de raio
Serena é a chuva que cai de fininho
Eu sou tudo e todos
Eu não sou nada
E não é isso mesmo ser deus?

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Desbravo meu corpo com o teu
Descubro a flor que sou e
Desabrocho em tuas mãos
Desterra-se  o solo que contém meus pés
Descentraliza o eixo que me mantém sobre as pernas sem tombar
Tremo
Caminho sobre o desconhecido
Desconheço o caminho das tuas léguas
E por isso mesmo exploro o território das tuas pintas
Até pintar tua cama de vermelho em sonho
Desatina, flor
Enlouquece as minhas beiradas
Desmancha as minhas certezas tolas
Faz do meu céu da boca o topo do teu desejo
Com a tua linguística transbordante
Dos des que desarrumam meu cabelo
Instaurando a desordem deliciosa do transe





domingo, 9 de outubro de 2016

A todos os afetos nutridos
Por mais que confusos
Por mais que atados ao medo

Saber desatar os nós que embrulham o estômago
E me fazem enganar a mim mesma

Ando em círculos
Te procuro e me perco

Perdoa

Se te maltratei foi porque me maltratei primeiro
E nenhum de nós merecia

Ainda lembro de um quarto rosado toda vez que escuto radiohead

E então eu danço
Não há mais nada que se possa fazer

sábado, 8 de outubro de 2016

De tudo que restou de mim
A inquietude das palavras trôpegas
Me move adiante aos mistérios sem fim
O universo é só um ponto engasgado na minha garganta

Tenho sede de intensidade
E um sossego interrompido de pressa
A ansiedade é uma hidra
Corta uma cabeça cresce outra

Ligar as constelações que brilham em mim
Tecer um manto de desejos
Pra me encolher nos dias chuvosos
A imaginação é maior que o cosmos

Navego numa jangada o hiper-espaço
Silencio e amorteço
Atravesso o avesso do mundo
Chego em lugar nenhum
E tiro um cochilo
Adentro o espaço da sala
Cheia de caras alheias
Atravesso o fumo
Firmo o olhar em cada aresta
Presto atenção em uma história engraçada
Uma estranha consciência me atravessa
Esqueço minha cara
Só alcanço o outro e meus pés
Sapateio e dou risada
Solto palavras sem controle
Ouço o eco da minha voz e ensurdeço
Reino no vazio que me habita
Nenhuma lágrima escorre de mim
Emburreço
Endureço
Embruteço
Mas o corpo não esquece de dançar

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

La vida en rojo ou Ode ao vermelho

A terra o sangue a carne
O vermelho é a víscera da vida
A fome e a vontade de arranhar a pele
De certo que o azul o amarelo e o laranja também são a vida
Porém de forma mais branda
O vermelho é o fogo
É toda a intensidade que corre nas veias
O azul o círculo e a nota dó são o divino espiritual
O vermelho é a cor que habita os ventres
É a carniça é o dente que morde
O calor do sol é vermelho quando toca os corpos nus
A vida é nua
A vida é crua
A vida é dentes e unhas
Avermelhada e úmida
O leite que escorre das tetas
O cuspe e o movimento
O berro
O nascimento
A coragem que racha as rochas

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Que saudade que eu tenho
Daquele calor de não respirar direito
De ver tudo torto
Eu e você de calças arregaçadas
Com o pezinho na água
Naquela casa no meio do nada
O jardim de concreto e mato seco
Nós, ruínas
Saudade de montar em você e chorar de amor e tristeza
A tristeza gruda na pele
O amor derrete
Eu beijo teus lábios úmidos
Como se fosse a última coisa a fazer
Antes de me esvair com o vento
Aspiro teu cheiro fundo
Te beijo inteiro
Cada parte de pele
Te seguro mas já sei que não é mais meu
Que tesão triste
Em cima do telhado te bato uma punheta
O céu é enorme
É enorme é enorme
O desejo atravessa a estratosfera
Mas só por um segundo
E que triste
Morremos
Morremos
Morremos