quinta-feira, 16 de agosto de 2018

isso é amor

a memória da sua bochecha
corada
a roçar na minha
atravessando a espinha
num sorriso de corpo inteiro:
a imagem de um mamoeiro
pendendo de sua magreza
um farto fruto fértil
a conquista da beleza
em cada ponto plano paisagem
prédio prato miragem
que o olhar alcança
enquanto a memória
avança
e devora
a fruta.

hoje vi uma garça
branca
parada
refletida n'água
e parei
perplexificada
pelas constelações
que se pintavam
líquidas,
o duplo do duplo
o olhar desnudo
tocando a realidade
que então mostrou sua calma
sua alma e sua lama
naquela garça
parada.

o amor está ao nosso redor
como o ar que nutre a todos
na proporção exata
desde as plantas
em sua capacidade
de alimentar-se de estrelas
até clarice e sua capacidade
de antever o futuro
no imediato,
há um rastro
que reverbera
entre um
e outro
os unindo
pelo amor,

é então que as bochechas
relampejam
de uma sincera alegria
pois reconhecem as suas
no capim à beira do lago
iluminado
na teia que liga a garça
ao mamoeiro
e a mim
e a ti,
num constante ato
mágico
tácito
poético
de dizer sim.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

poesia
esse estado
de transe

loucura
beira
nem eira

:

tento me expressar em seus embalos
ritmos encadeados desenfreados
abalos sísmicos na madrugada
teu alento se faz casa
em pensamento à
margem d'água...

perdoa se é demais ainda
pro pouco tempo de cafuné
é que é tão forte e seguro
esse amor espontâneo
que esqueço da fragilidade
que pode ter um sentimento dúbio
mas te digo crua que acho
que alarga o futuro
poder expressar até os beliscos
que mordem a pele de vez em quando
na presença de um ou outro fantasma;

o passado é rabo longo mas é rastro
late mas não morde
é cachorro pequeno e abusado
não tenho paciência pra esses
mas por acaso gato
eu reverencio
por serem estes
os guardiões dos portais.

atravessar o tempo
exige coragem de vendavais
ousadia de maremotos
inventividade de nuvens
desapego de tudo mais
que não for o sentimento
que emana genuinamente de dentro
pra fora até o centro do universo,

e eu estou pronta.
Venho gritando seu nome
aos sete ventos,
na janela do ônibus
feito cão sem dono.

Tenho certeza plena
de que quero estar contigo,
meu amor!
E é maravilhosa
a sensação de escolha.

Por isso eu te peço
mais uma vez
namora comigo,

que eu te prometo
que vai ser novo
a cada ciclo,

um padroeiro diferente
a cada mês,

reafirmado os votos
em cada vez,

abençoadas
na generosidade de Leonardo
ou na sabedoria de Rogério...

Seguimos estrada,
firme,
rumo à vida
assertivamente
acolhida
a cada passo.

domingo, 5 de agosto de 2018

Bruno à 299 792 458 m/s

ela é linda, meu bem
que bom saber que você está amando de novo
é de encher o peito de esperança
mas confesso
que rolam-me as lágrimas
pelos tantos quilômetros de distância
entre o que fomos e o que somos
já estamos mais perto de sermos outros
do que estamos de sermos aqueles
mas ainda tenho nosso quadro
sobre a minha cama
para celebrar o amor que eu sei
que me é total
que é aquele transbordante ainda
que aprendi contigo a sentir
que vi crescer em mim até virar pedra
nos rins
e que não me pertence
o amor não pertence
atravessa
transborda
de dentro pra fora
é por isso que me alegra saber
que você está amando de novo, meu bem
porque você é e sempre será estrela
dentro do meu peito
luz própria
independente
rastro
de
luz
na
memória
do
céu

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Se saudades sinto
de repente
na lembrança pousa
suavemente
como um rastro de luz
certa partícula viva
que se produz no encontro
entre dois seres.
Encontro este
que os transforma
intimamente
e assim também
o curso da história.

Essa afetiva memória
percorre a espinha como presença.
Avisando ao meu corpo
que seja forte
e honre a passagem
de cada gente
sul ou norte
que me atravessou
e mudou os rumos do meu navegar.

Vou ao lado da Sorte neste imenso mar
de águas infinitamente possíveis
a revés da morte
e trajando bandeira
esbravejar:
"serei mais forte
serei mais suave
serei firme como a rocha
e doce como o mar,
pois esta partícula vibra
em meu ser inteiro,
indivisível,
como a certeza
de que já é tempo
de ser-me,
corajosamente,
este eu-possível"

terça-feira, 17 de julho de 2018

socorro lira
do terraço

diz

é tão frágil a delicadeza
que tenho medo de perdê-la

enquanto derramamos nossas lágrimas
e esquecemos delas dançando o dois mais dois

é raro encontrar a beleza
e não deixá-la escapar

pois

é preciso alguma maturidade
pra apreciá-la além da euforia
de encontrá-la como susto

a calma que rogo é aquela
que vive a beleza

decididamente

em cada lágrima
formando pérola
no estômago

meu bem
escrever é uma decisão
é um ato de amor

gerar do nada a palavra
tem a força de dar forma
ao informável

a delicadeza é uma forma
de amar o informável

eu escolho as suas bochechas

sempre

como uma visão que a retina
grava na pele de nossas memórias

sei que já nos conhecíamos antes
de nos encontrarmos nessa vida

mas é nova cada noite de lua crescente
em que sangramos juntas

nessa noite no terraço
antes de você me apresentar socorro
eu decidi te amar com todo meu coração

mas já estava decidido antes de eu me formar
e ver formando em mim esse informável

que ganha som e ritmo
e dança no meu corpo

sinuosamente

sem palavras

como uma cobra d'água
subindo rio acima

escorregadiamente

entre meus órgãos







sábado, 30 de junho de 2018

para o Pedro

de ondas se faz o centro  
a pressão de estar debaixo da terra 
sem escoamento possível 
mas de ondas se faz o centro 
e o passado se faz no presente 
essa dança  
é como uma arma  
não se pese 
é de ondas que se faz o centro 
no cerne cardeal  
de todas as medidas 
norte sul leste oeste  
onde meu olho vai 
vem também este cordão  
que arrasto desde o nascer 
centro 
abismo  
hoje chorei debaixo d'água 
dancei no fundo do oceano 
depois me disfarcei de superfície 
é de espanto que se faz o homem 
e de ondas que se faz o centro 
dando voltas em si mesmo 
buscando o que? 
a certeza de que só há incerteza 
a segurança de que só há insegurança 
a coragem de se lançar ao indefinido 
mesmo que seja ilusão 
in you im lost 
não há salvamento  
estamos sozinhos  
nessa noite desconhecida 
sempre estaremos sozinhos 
mas temos as vozes que nos acompanham 
sussurrando memórias de um futuro incerto 
a tempestade dentro de um tormento 
de ondas é que se faz o centro 

Contorcionismo para a expansão

Tenho crescido no meu corpo ainda juvenil
como uma esponja que vai absorvendo a água toda, 
como uma suculenta que retém a água para suportar a secura externa, 
como um jarro que se enche sem jamais transbordar, 
e que quando se olha dentro parece vazio e escuro 
como se guardasse a noite vazia e escura em si.  

Quando me observo agora com o corpo inchado  
de uma gravidez espiritual 
e de uma fome cada vez mais larga;  

quando me vejo nutrindo essa busca 
de mim mundo adentro de mim mesma, 
e me vejo tocando o dedo de Deus 
numa religação revigorante com a natureza
e o mistério que circunda a existência de todas as coisas 
em todos os tempos, eras geológicas, astrológicas, e amorosas, 

me sinto de alguma forma nova e velha ao mesmo tempo. 
Como se descobrisse algo novo que, em verdade, 
é toda a memória magmática, que está em mim 
numa pequena partícula vibrátil  
em cada célula do meu corpo, 
que às vezes arrepia de dentro pra fora até a pele, 
me indicando o caminho mais coerente, 
que é aquele que me leva sempre de retorno a mim. 

Porque eu não tenho em verdade 21 anos, 
eu tenho bilhões e bilhões de anos...  
Mas o que é em verdade o tempo? 
Está contido nesse segundo 
em que sou eu agora e ouso dizer que tenho 21 anos  
e ainda não aprendi a predizer e a ler os oráculos. 

A arte de olhar o passado é a de arriscar jogar o jogo do futuro. 

Pois é preciso conhecer estes mistérios, 
ter o pé cascudo e firme, 
vestir-se do barro quente, 
e adornar-se com pedras e tecidos leves -
que estão à disposição de nós como o sol,  
que se levanta laranja nos sonhos de alguns. 

Encontrar a ancestralidade 
não é necessariamente buscar na família 
a árvore genealógica, 
é também descobrir a sua face para além do espelho, 
reconhecer as forças que te acompanham, 
se familiarizar com elas. 

É ser raiz que nutre o corpo 
que se alonga rumo ao céu 
numa dança sutil da alma: 
contorcionismo 
para a expansão. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Ana,

I
o teu afeto me move e emociona
o teu carinho me soa como casa
o teu riso movimenta as borboletas
cá dentro da minha barriga

já sou um rio quieto esperando cê voltar

II
vem com seus barulhos de grilo falante
e seu jeito de falar poesias por
entre os dentes pequeninos
esse olhar de bicho ou de criança
ou qualquer coisa cúmplice
e sagrada que emana de tuas
pupilas pretas de bola de gude

é na brincadeira que se leva a sério a vida

III
vamos inventar uma fábula
em tons de terra cota
em que os bichos saibam dançar
o côco, e as palavras saibam
rastejar

que não haja limites pra nossa inventurança

IV
respeitar o corpo
escutar o desejo
saber que se é natureza


o amor é o que mantém as células juntinhas


V
seu torço macio dobrando entre
meus dedos por debaixo
da camisa do pijama que
grudou na sua pele feito mel

imagens que guardo para os suspiros


VI
incontáveis palavras
ecoando
com a sensação de que
eu adoro te escutar e
te ver movimentar os lábios


você é exímia comunicadora
(principalmente quando me beija estalado)


VII
24 horas passam como 6
e já quero ver multiplicado o
tempo que meu umbigo cola
no teu numa matemática
afetiva que nos desenrola


como o um que gera o dois quero dançar forró com você

VIII
quentão ficou meu coração
depois dessa ciranda linda
arrê, viva São João!
e a arte de cantar cantiga

ó, tua aura cor de mel brilha mais do que o sol


IX
tua voz doce
falando de outra voz
doce numa ode
aos sons que emergem do mar


A imaginação é uma jangada
(que me conduz a ti)


X
palavra cuspida é
palavra revelada
palavra escondida
é palavra-coágulo

sem caroços na garganta: vamos falar de amor