sábado, 20 de maio de 2017

esboço de paisagem n.7

esboço uma paisagem no centro da cidade:
sozinha e poluída,
centopeia metálica,
dor de ouvido.
quantas pessoas cabem numa cidade?
quantas cabem no mato virulento misturadas aos suores de outros animais?
dói.
ter que pensar que já perdi minha infância.
os anos que passam são sempre lentos e rápidos demais.
cresço com os prédios que sobem cada vez mais alto.
diante do penhasco que surge sob meus pés: a queda livre.
a queda calma e pasma e assustada também,
de todas as possibilidades que o agora me dá.
um corpo é uma cidade.
reduto de linhas, tráfegos, olhares.
o sexo é uma cidade turbulenta e desértica.
escritórios por cima de escritórios e a esquizofrenia.
me dê seu dente embalado em papel de embrulho.
serei feliz.
tenho janelas bem distribuídas pelo corpo.
ou assim procuro deixar o vento penetrar o cômodo vazio 
em que estou-me a deitar num divã dentro de mim. 
esboço uma paisagem fluida no centro do meu corpo:
é uma imagem.
tem som e omoplata.
mas é segredo.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

corpo concreto

É pele
   carne
   sangue
   víscera
É músculo
   respiração
   diafrágma
   olhar
É mato
   selvageria silenciosa
   música do silêncio 
   matéria do tempo
   ar. 

domingo, 30 de abril de 2017

Andorinha

coração amacia
ama cria cora
vermelho
macio e velho
dentro do peito
doce suave leito
leite materno cuado
eu, acuada, dentro
chove infinitamente
chora infinitamente
pertence e sente o calor
a quentura dentro
da casa que é teu beijo
vermelho e quente
latente, dentro de mim
escorre penerado
escapa a morada
avantajado
feito peito de pombo
rebento corajoso,
tombo
tomo voo lento
e amoroso
pra dentro
dentro dentro alento
de tu, carícia minha:
andorinha
(não se faz verão sozinha)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Tristeza

Trezentas farpas encravadas na face solar de meus pés.
Lágrimas banham meu corpo doce e sanguíneo.
Pequenos buracos nas minhas artérias.
Pequenos coágulos nas minhas veias.
Piso ainda em solo vítreo e quebradiço e passeando pela minha tristeza, aguento os cacos, tão finos, que furam meus pés.

Violinos me perfuram, me penetram inteira.
Sou já feita de madeira maciça e musical.

Tenho um lago negro morando em mim.

Sei que sou sozinha na minha solidão.
Sei que minha dor me pertence e que mesmo assim meus olhos e minhas garras de gavião lutam no escuro, inúteis.
Sei ser inteira e despedaçada.
Sei ser doce e sei ser salgada.

Sou feita da única matéria que me seria possível e ainda estou aprendendo a nadar.

Tece violenta a sua fúria sobre a minha pele.
Toca delicada a minha vulva e se despede de mim.
Tristeza: deixo-te ficar a noite, mas de manhã não quero ver-te por perto.Vá com o nascer do sol e leva contigo teus cristais.

sexta-feira, 17 de março de 2017

minhas mãos malhadas de medo
escorre a matéria do tempo por entre os dedos
tua sorte (ou azar): é cedo
para dizer sobre nós
e pois
e logo
aqui e lá
desata os nós dos meus dedos
me ensina a ver com teus ouvidos

tens nas mãos punhados de cheiros
caminhos, teias, tragos, cabelos
tua boca esconde segredos
de outras vidas
outros ocres

me contas apenas a
pluma
que escorrega dos teus lábios
pueris
é pouca a massa da vida
se não a luz que atravessa a
pele
e vem descansar nos teus tesos
pelos

toca o teu cheiro com os dedos
o umbigo do umbigo do umbigo
e o medo?

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Mais uma translação se completa
Em alguns dias
(catorze para ser exata)
E agora, paciente, me enxergo inteira
Fragmentada
De amores

Amacio a saudade com cheiro de flor
Como se dobrasse um lençol recém lavado
E, trocando o jogo de cama,
Durmo tranquila ao som das molas retorcidas
Debaixo do peso do meu corpo

Quero ficar bem quieta
Procurar refúgio nas montanhas geladas
Anseio pelo lugar do nada
                                do vazio
                                do silêncio
Lá onde ninguém vive
               ninguém pisa
               ninguém fala

Mas gostaria de ir com você
E compartilhar minha solidão à dois
Te contar segredos baixinho
Dormir no balanço dos teus carinhos
Olhar nos teus olhos verdes de enigma

Tu que é semente

É preciso compreender a linguagem das plantas
O amor precisa cuidado para germinar
Se achegue cá, tatu
Que quero te ver bunito
Venha e traga frutas vermelhas ou roxas
Doces e suculentas
Pra encher as gengivas desse gozo fortificado
Pois traga também palavras bem selecionadas
E prepare a língua, meu amor
Que já anseiam meus ouvidos  
Por tua voz grave ruborizada em versos roubados
De caroços alheios
Canta o cântico dos enamorados
Me encanta com a melodia do fundo
Do poço primevo  
Onde fervem, pois, os teus versinhos pequetitos
Milimétricos  
E depois ainda,  
À conta-gotas
Sussurra-me nas orelhas eriçadas
A medida – fonte abrupta – do teu desejo

domingo, 8 de janeiro de 2017

O fio do tempo que tece essa segunda puberdade
A comichão do amor em prantos a arder a pele
A erupção telúrica dos teus afagos
Parcas moiras, venham cá moirinhas
Me façam um chamego enquanto preparo meu sono
Cozinho meus sonhos em banho-maria
Atravesso a pouca idade com o peito inchado
Tenho espinhas muito novas na testa
Elas que só agora vem povoar a minha fronte constelada
E já tão cedo canso da minha cara
Peço piedade ao meu corpo para que não me traia
Para que dele apenas cresçam sementes
Filhos-bananeiras
Do meu útero pequetito: frutos avermelhados
O milagre grotesco
Tece moirinha
Tece o meu amor em carne viva
Tece feroz a paixão que encharca os pelos púbios
Dentro das conchas uterinas dormem
Silêncios encapsulados em suspiros
Pois quando brotam da flor em prece
É palavra alagada e grávida
Dos meus tenros, férteis, anos
Que coragem a das pedras em dizer o indizível
Traduzir o magma que corre nas veias
O pulso virulento que ritma os descontroles

Preciso captar cada relevo da sua face
Com minhas antenas atentas
É doce o cheiro das tuas bochechas
Coroadas do mel da juventude

Abre tuas portas que eu abro as de cá
E vejamos quem ri por último

A carapaça que usas esconde tuas pérolas
Um mar que atravessa os mundos
Expande tanto que escapa o seio
Dos teus olhares
E se derrama no céu aroxeado
Dos sabores do fim da tarde

Se as nuvens fossem mais próximas
De nossas cabeças balonis
Então escutariamos as músicas das chuvas
Antes mesmo de nascerem
Chorariam depois em nossos ventres
Inundando as incertezas tolas que cobrem
A relva das nossas peles

E só quando o fio que sai do meu côncavo
Toca o seu convexo espelhado
Numa brincadeira de beijinhos de esquimós franceses
Aí sim,
o intraduzível impalavrável impensável
Pula da boca ao coração feito perereca assustadiça

Faz parte...
Três olhos
Três narizes
Três bocas pequeninas mal alimentadas

Sete cabeças ocas
Outras sete cheias de vento

Oito pés descalços cor de abóbora

Doze mãos aflitas descansantes

Quatro pernas vítreas
Quatro braços bambos

Sete mais sete são catorze
Pois seus dias são o dobro dos meus
Meus dias são a metade dos teus
E se eu dobrar os meus dias
Quem sabe eu - tão pouca - saiba usar então dos teus doze dedos musicantes
E aprenda a cantar as matemáticas da tua - uma! - língua

domingo, 1 de janeiro de 2017

Enche de ternura a minha boca
E assalta a minha infância erguida em prece.
Tece em fios tenros a baba que liga os ventres ocos
E, pacientemente, me atravessa o semblante duro
Até alcançar a carne mole,
O olhar fundo,
O sexo explícito e inconcluso,
A testa plácida,
E todos os suspiros tímidos
Esperando para serem arrancados da morada
(útero-casulo dormindo sereno dentro da minha solidão).
Remove a poeira que cresce no canto dos meus olhos,
E, peço-te, humilde, tende piedade das minhas mãos miúdas.