segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

I.
uma
bolha
de 
sabão

voa

ave
ensaboada

II.
um estouro
um estalo
um estado ínfimo de coisas

explode 

no ar

III.
um brilho
no canto 
do olho

um som
no canto
de um pássaro

IV.
o pasmo 
pousa

leve 

num á
-timo

e passa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

notívaga

o escuro lumeia-me o vago olhar 
a escanear os escombros 
deste apagado quarto,
escondido sob a sombra
de um imenso barco,
esquecido,
encalhado
nas areias do tempo
que se esqueceu de cair
sobre nossos corpos
desérticos,
vastos,
esparramando-se 
sem fronteiras
no espaço...

secos, nossos dedos
não encontram nada
a não ser derivas,
sonhos desalumiados,
encardidos de esperas...
somente os olhos,
envidraçados e oblíquos,
perdidos nos tantos périplos
que não se deram 
em sabe-se quais mares,
guardam um resto,
um rastro longínquo, 
de umidade...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Corre
Corre, criança

Corre 
dentro do meu peito
Rufa os tambores do meu coração
Canta nele a sua alegria acesa
Dança nesta terra porosa que sou
Faz desse corpo seu instrumento

Corre 
Corre, criança

Em direção ao mar
Na crina do vento
Levada pelas águas 
que flutuam no horizonte
que já mora no seu olhar

Venta
Como faz o ar
Como faz o sopro 
que sai desta boca
em forma de palavra

Canta
a maravilha do mundo
com as suas palavras-flecha
Sonha
o destino do fogo
que incendeia seus pés e

Corre
Corre, criança

Pois chegou a hora
A brava hora
de voar em vermelho
Como fazem os pássaros
quando o sol detrás da montanha
diz que é tempo de voltar para casa

domingo, 6 de dezembro de 2020

rios ou ramos ou raízes
espalham 
sob a terra, sobre o ar
sendas, sulcos, rumos 

ritos ou restos ou rostos
esquecidos 
nas sobras da mesa
nas sombras dos fumos 

rastros ou ratos ou ruínas
escapam
das frestas, das arestas
do pó rente às brechas

da vida permeando em festa
os cantos, os contos, os cântaros
como rios ou ramos ou raízes...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

aos 18
descubro Radiohead, mas ao ouvir Creep
é como se eu fosse catapultada de volta
aos 13
aquele sofrimento brotando alienígena do meu íntimo
a primeira menstruação manchando a infância
eu sou um monstro, menos, eu sou um feto escroto
é o que escrevo no meu diário
aos 14
quando assito ao show do Roger Waters
e minha percepção de realidade é destruída a marretadas 
como o muro construído tijolo por tijolo no Engenhão
para ser então reconstruída sobre a dúvida
os pensamentos derretendo ao som de Dark Side of the Moon
aos 17
numa sala vazia, encostada sobre a parede branca
o corpo escorregando
aos 18
noutra sala, deitada no chão
hipotizada pelas luzes neon
que brilham formando padrões no teto
o seu rosto me enfeitiçando do outro lado do cômodo
o seu corpo grudado no meu numa cama de solteiro às 7 da manhã
e Kid A tocando na sua vitrola, mas é só
aos 21
que assisto o Thom Yorke ao vivo
e tenho a impressão de que ele é um peixe 
dançando sem ossos e eu um aquário vazio de ar
você está lá naquele cardume em algum lugar
mas a essa altura eu já desisti de te procurar.

domingo, 15 de novembro de 2020

minha barriga é um vaso
um vaso de terra fértil
gestando minhocas

minha barriga é um mar
um mar de lombrigas
dançando famintas

minha barriga é o sono
o sono de raízes
fermentando a fúria

minha barriga é um caldeirão
um caldeirão de bruxa
amalgamando a cura

minha barriga à esquerda 
da minha costela direita

minha barriga à direita
da minha costela esquerda

é um samba de líquidos
equilibrando tormentas

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

De que são feitas as casas  

que moram dentro desta casa? 

Casas de sonho 

de bonecas 

de areia  

escorrendo  

dia após dia 

das arestas 

Iluminada pelo breu do luto,  

trançada de vulto e vácuo 

Escada em espiral, bromélias 

          barcos naufragados 

          nos cantos dos quartos 

O escritório do avô: 

camas 

livros 

fatos revelados 

em câmera lenta 

O próprio avô, fantasma, passeia no espaço: 

de quando em quando ajeita um quadro 

As salas, os sofás, os santos 

a louça azul chinesa – 

camadas geológicas  

impressas na madeira  

(a família, ainda a mesma?) 

Jantares, bolos, rabanadas 

Sobre as mesas, candelabros 

      velas acesas 

      taças de cristal 

O som das musiquinhas do Natal 

O seio costurado da avó 

O silêncio aguado do pai 

Os gestos justos da mãe 

De que são feitas as casas  

que gestam as gerações? 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

entranham-me quenturas serelepes,
percorrem-me a carne tesa e flácida nas margens,
tremem-me o tecido musculoso e vibram-me as partes ocultadas
sob os tecidos viscosos, maleáveis, que colam-se às minhas mamas molengas.

a libido salta:
corre e 
pressiona e 
ganha impulso e 
dispara 
vertical
no ar.

gente gente gente
um corpo 
meu deus
um corpo
que não é o meu!
meu deus me dê um corpo
que diga ao meu com gestos:
- você é um outro
me deixe ser outra
nessa noite abafada
sua e sua e pele e 
um pouco de sangue
e geme geme geme 

as bordas dissolvem um corpo que já não é este,
as fronteiras suspendidas no ar são lagartixas de luz 
dançando eufóricas ao som dos tambores que rufam e furam
milhares de cabeças que flutuam no quarto, sem torso nem rosto.

sábado, 17 de outubro de 2020

me inventaria outra tristeza 
se pudesse: um sentimento azul
e leve como uma pluma que cai
das asas distraídas de uma gaivota.

minha tristeza não seria uma pedra perdida 
em seu própio peso no fundo de um lago,
seria a água próxima à superfície,
invadida pelo calor frio dos primeiros raios.

a água, maleável, furaria a pedra.
minha insistência mole venceria sua crosta dura.

não seria a tristeza um animal despossuído,
vagueando pela floresta em seu delírio circular.
 seria um sinal de sã sensibilidade,
seria a possibilidade da beleza.

minha tristeza não seria amarga,
não queimaria a garganta no gesto
de esconder-se, envergonhada.
seria agridoce como as lágrimas:
inclinada às incertezas mais interessantes.

seria um barco a minha tristeza,
seria um porto e um farol.
seria um peixe-espada
pulsando vivo no coração das águas.


o que mata é nascer
com seis com dois com
quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
dedos impressos nas rochas
na cal solitária dos muros
na digital futurística
de um passado que
já foi futuro e o sangue
seco no papel o meu
sangue cego surdo
gritante
emaranhado nas letras
fugidias nas vozes
ferozes que me
alcançam no íntimo
úmido num átimo
e mínimo segundo
em que já sou primeira
ou última nessa
rede viva de memórias

sábado, 4 de julho de 2020

para Duda

bailarina da sorte
borboleta de vento
em poupa
papoula
esvoaçante

a vida em
estado de graça
quando nascendo
da sua beleza
dançante

de gestos íntimos
e cheios
engravidados
de luz e afetos

que infinda festa
compartilhar
da sua presença
etérea e forte

chão nos pés
pés no céu
céu na água
fluxo espelho
sol brincante

gorjeios
sinuosos
sussurantes
num jardim
aberto

que sinto
e vejo
quando você
está perto

como um santuário
vasto e natural
o corpo um carnaval

feliz aniversário!