2016
Aproveito a doença e a histeria
Pra eriçar os pelos do corpo
Fazer vibrar vértebra por vértebra
Entranhar nos meus buracos os dedos sujos da rua e a solidão que trago com ela
A fumaça impura das bocas maltratadas
Mordidas e beijos cheirando a buceta de todas as esquinas
O egoísmo e o sexo
O asfalto tremendo com as rodas dos carros
Um tesão intenso a uma da manhã pelos bêbados dentro, dentro, dos carros
Qual a diferença entre dedos e carros?
domingo, 24 de julho de 2016
2016
Sou porque preciso levantar todos os dias
Da cama
E enfrentar os barulhos dos carros
E as pequenas palpitações
As pessoas pretendem ter coisas
E fazer caridade para limpar a alma
Tenho longos anos de uma vida morna
As instituições me perseguem
Enquanto eu amarro os sapatos
Ser adulto exige muito do corpo
Por isso procuro rir e dançar com frequência
Assim comigo mesma
Porque o outro é sempre mais difícil comigo
Queria dormir melhor
Para poder lembrar dos sonhos mais vezes
E com mais detalhes
Poder escapar
Dos dias repetidos
Um pé depois do outro
Um pé depois do outro
Um pé depois do outro...
Sou porque preciso levantar todos os dias
Da cama
E enfrentar os barulhos dos carros
E as pequenas palpitações
As pessoas pretendem ter coisas
E fazer caridade para limpar a alma
Tenho longos anos de uma vida morna
As instituições me perseguem
Enquanto eu amarro os sapatos
Ser adulto exige muito do corpo
Por isso procuro rir e dançar com frequência
Assim comigo mesma
Porque o outro é sempre mais difícil comigo
Queria dormir melhor
Para poder lembrar dos sonhos mais vezes
E com mais detalhes
Poder escapar
Dos dias repetidos
Um pé depois do outro
Um pé depois do outro
Um pé depois do outro...
2016
Notas doces
Caramelizadas
Ecoando, velhas, do piano
A madeira escura, sombria
Guarda memórias de toques outros
De outras vidas
De outros tempos
Andante
Dolce
Canta suave a saudade
Chora baixinho
E faz trovoada
O som dos meus dedos
Paternais
A reger a melodia confiante
Que é como um grande coração
A pulsar forte
Vibrando pelo corpo do cômodo
Adentrando imediatamente meus ouvidos
Que respondem com os dedos
Determinados
Continuamente
Tocar ouvir tocar
Sentir de todo
Um bicho da seda enorme
Sentado numa cadeira
Aperta o pedal
Vem a melancolia
E o som da chuva
Uma chave é capaz de abrir-te
E revelar teus segredos todos
Caixa de Pandora
Borboletas mortas lá dentro
Vem a raiva
E o choro
E toco forte
Para a floresta toda ouvir
Como é triste o meu piano
Como é louco!
Notas doces
Caramelizadas
Ecoando, velhas, do piano
A madeira escura, sombria
Guarda memórias de toques outros
De outras vidas
De outros tempos
Andante
Dolce
Canta suave a saudade
Chora baixinho
E faz trovoada
O som dos meus dedos
Paternais
A reger a melodia confiante
Que é como um grande coração
A pulsar forte
Vibrando pelo corpo do cômodo
Adentrando imediatamente meus ouvidos
Que respondem com os dedos
Determinados
Continuamente
Tocar ouvir tocar
Sentir de todo
Um bicho da seda enorme
Sentado numa cadeira
Aperta o pedal
Vem a melancolia
E o som da chuva
Uma chave é capaz de abrir-te
E revelar teus segredos todos
Caixa de Pandora
Borboletas mortas lá dentro
Vem a raiva
E o choro
E toco forte
Para a floresta toda ouvir
Como é triste o meu piano
Como é louco!
Protótipo de Instalação
2016
Toco minha vulva que
empresta ao dedo sua superfície:
Uma obra de Yayoi Kusama ou Louise Bourgeois
Distantes e mesmas
Repetindo em falos, faltas
Uma almofada gigante rosa
Cheia de gel
Muitas pessoas se esfregando
Entrando, brincando
Na vagina-mãe
É escuro e quente
É próximo do útero
O saudoso útero
Lar-primeiro
Várias pessoas juntas
Dentro
Se tocando, apertadas
Desconfortáveis
Nem todas
Uma criança
Perdida
Pele
2015
Como poderei livrar-me da minha pele?
Da minha roupa de cada dia?
Não nasci nua
Nasci vestida de pele
Essa mesma que carrego desde o ventre
Com células remanescentes
E outras renovadas
A mesma que carregarei até o
Instante
Em que os sentidos se apagarão
E no silêncio do escuro
Restará de alimento a outros espíritos
Selvagens
Pele
Reduto de memórias
Toco, tateio
Minhas marcas
Olho a palma da mão
O dedo do pé
Mapa de estrelas
Pintas
Encruzilhadas
Como poderei livrar-me da minha pele?
Da minha roupa de cada dia?
Não nasci nua
Nasci vestida de pele
Essa mesma que carrego desde o ventre
Com células remanescentes
E outras renovadas
A mesma que carregarei até o
Instante
Em que os sentidos se apagarão
E no silêncio do escuro
Restará de alimento a outros espíritos
Selvagens
Pele
Reduto de memórias
Toco, tateio
Minhas marcas
Olho a palma da mão
O dedo do pé
Mapa de estrelas
Pintas
Encruzilhadas
2015
Quando o sol vai ficando frio
E azul
Tudo se ilumina de claridez
E, por um momento,
As coisas parecem escapar de suas matérias
E o mundo todo respira
Um globo de luz se escondendo nas montanhas
Indo embora apressado
Tudo ainda claro,
Frio e azul
O verde das plantas é envolto no azul
O meu corpo,
Dividido em luz e sombra,
Emana um branco azulado...
As coisas no paraíso devem ter essa luz
Quando o sol se despede dessa terra
Deixa aqui os raios do seu mistério
O mundo inteiro, então, flutua
Enquanto aguardamos a melancolia da noite
Quando as cores escurecem
E minha alma esvazia
Quando o sol vai ficando frio
E azul
Tudo se ilumina de claridez
E, por um momento,
As coisas parecem escapar de suas matérias
E o mundo todo respira
Um globo de luz se escondendo nas montanhas
Indo embora apressado
Tudo ainda claro,
Frio e azul
O verde das plantas é envolto no azul
O meu corpo,
Dividido em luz e sombra,
Emana um branco azulado...
As coisas no paraíso devem ter essa luz
Quando o sol se despede dessa terra
Deixa aqui os raios do seu mistério
O mundo inteiro, então, flutua
Enquanto aguardamos a melancolia da noite
Quando as cores escurecem
E minha alma esvazia
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