socorro lira
do terraço
diz
é tão frágil a delicadeza
que tenho medo de perdê-la
enquanto derramamos nossas lágrimas
e esquecemos delas dançando o dois mais dois
é raro encontrar a beleza
e não deixá-la escapar
pois
é preciso alguma maturidade
pra apreciá-la além da euforia
de encontrá-la como susto
a calma que rogo é aquela
que vive a beleza
decididamente
em cada lágrima
formando pérola
no estômago
meu bem
escrever é uma decisão
é um ato de amor
gerar do nada a palavra
tem a força de dar forma
ao informável
a delicadeza é uma forma
de amar o informável
eu escolho as suas bochechas
sempre
como uma visão que a retina
grava na pele de nossas memórias
sei que já nos conhecíamos antes
de nos encontrarmos nessa vida
mas é nova cada noite de lua crescente
em que sangramos juntas
nessa noite no terraço
antes de você me apresentar socorro
eu decidi te amar com todo meu coração
mas já estava decidido antes de eu me formar
e ver formando em mim esse informável
que ganha som e ritmo
e dança no meu corpo
sinuosamente
sem palavras
como uma cobra d'água
subindo rio acima
escorregadiamente
entre meus órgãos
terça-feira, 17 de julho de 2018
sábado, 30 de junho de 2018
para o Pedro
de ondas se faz o centro
a pressão de estar debaixo da terra
sem escoamento possível
mas de ondas se faz o centro
e o passado se faz no presente
essa dança
é como uma arma
não se pese
é de ondas que se faz o centro
no cerne cardeal
de todas as medidas
norte sul leste oeste
onde meu olho vai
vem também este cordão
que arrasto desde o nascer
centro
abismo
hoje chorei debaixo d'água
dancei no fundo do oceano
depois me disfarcei de superfície
é de espanto que se faz o homem
e de ondas que se faz o centro
dando voltas em si mesmo
buscando o que?
a certeza de que só há incerteza
a segurança de que só há insegurança
a coragem de se lançar ao indefinido
mesmo que seja ilusão
in you im lost
não há salvamento
estamos sozinhos
nessa noite desconhecida
sempre estaremos sozinhos
mas temos as vozes que nos acompanham
sussurrando memórias de um futuro incerto
a tempestade dentro de um tormento
de ondas é que se faz o centro
Contorcionismo para a expansão
Tenho crescido no meu corpo ainda juvenil
como uma esponja que vai absorvendo a água toda,
como uma suculenta que retém a água para suportar a secura externa,
como um jarro que se enche sem jamais transbordar,
e que quando se olha dentro parece vazio e escuro
como se guardasse a noite vazia e escura em si.
Quando me observo agora com o corpo inchado
de uma gravidez espiritual
e de uma fome cada vez mais larga;
quando me vejo nutrindo essa busca
de mim mundo adentro de mim mesma,
e me vejo tocando o dedo de Deus
numa religação revigorante com a natureza
e o mistério que circunda a existência de todas as coisas
em todos os tempos, eras geológicas, astrológicas, e amorosas,
me sinto de alguma forma nova e velha ao mesmo tempo.
Como se descobrisse algo novo que, em verdade,
é toda a memória magmática, que está em mim
numa pequena partícula vibrátil
em cada célula do meu corpo,
que às vezes arrepia de dentro pra fora até a pele,
me indicando o caminho mais coerente,
que é aquele que me leva sempre de retorno a mim.
Porque eu não tenho em verdade 21 anos,
eu tenho bilhões e bilhões de anos...
Mas o que é em verdade o tempo?
Está contido nesse segundo
em que sou eu agora e ouso dizer que tenho 21 anos
e ainda não aprendi a predizer e a ler os oráculos.
A arte de olhar o passado é a de arriscar jogar o jogo do futuro.
Pois é preciso conhecer estes mistérios,
ter o pé cascudo e firme,
vestir-se do barro quente,
e adornar-se com pedras e tecidos leves -
que estão à disposição de nós como o sol,
que se levanta laranja nos sonhos de alguns.
Encontrar a ancestralidade
não é necessariamente buscar na família
a árvore genealógica,
é também descobrir a sua face para além do espelho,
reconhecer as forças que te acompanham,
se familiarizar com elas.
É ser raiz que nutre o corpo
que se alonga rumo ao céu
numa dança sutil da alma:
contorcionismo
para a expansão.
terça-feira, 12 de junho de 2018
Ana,
I
o teu afeto me move e emociona
o teu carinho me soa como casa
o teu riso movimenta as borboletas
cá dentro da minha barriga
já sou um rio quieto esperando cê voltar
II
vem com seus barulhos de grilo falante
e seu jeito de falar poesias por
entre os dentes pequeninos
esse olhar de bicho ou de criança
ou qualquer coisa cúmplice
e sagrada que emana de tuas
pupilas pretas de bola de gude
é na brincadeira que se leva a sério a vida
III
vamos inventar uma fábula
em tons de terra cota
em que os bichos saibam dançar
o côco, e as palavras saibam
rastejar
que não haja limites pra nossa inventurança
IV
respeitar o corpo
escutar o desejo
saber que se é natureza
o amor é o que mantém as células juntinhas
V
seu torço macio dobrando entre
meus dedos por debaixo
da camisa do pijama que
grudou na sua pele feito mel
imagens que guardo para os suspiros
VI
incontáveis palavras
ecoando
com a sensação de que
eu adoro te escutar e
te ver movimentar os lábios
você é exímia comunicadora
(principalmente quando me beija estalado)
VII
24 horas passam como 6
e já quero ver multiplicado o
tempo que meu umbigo cola
no teu numa matemática
afetiva que nos desenrola
como o um que gera o dois quero dançar forró com você
VIII
quentão ficou meu coração
depois dessa ciranda linda
arrê, viva São João!
e a arte de cantar cantiga
ó, tua aura cor de mel brilha mais do que o sol
IX
tua voz doce
falando de outra voz
doce numa ode
aos sons que emergem do mar
A imaginação é uma jangada
(que me conduz a ti)
X
palavra cuspida é
palavra revelada
palavra escondida
é palavra-coágulo
sem caroços na garganta: vamos falar de amor
I
o teu afeto me move e emociona
o teu carinho me soa como casa
o teu riso movimenta as borboletas
cá dentro da minha barriga
já sou um rio quieto esperando cê voltar
II
vem com seus barulhos de grilo falante
e seu jeito de falar poesias por
entre os dentes pequeninos
esse olhar de bicho ou de criança
ou qualquer coisa cúmplice
e sagrada que emana de tuas
pupilas pretas de bola de gude
é na brincadeira que se leva a sério a vida
III
vamos inventar uma fábula
em tons de terra cota
em que os bichos saibam dançar
o côco, e as palavras saibam
rastejar
que não haja limites pra nossa inventurança
IV
respeitar o corpo
escutar o desejo
saber que se é natureza
o amor é o que mantém as células juntinhas
V
seu torço macio dobrando entre
meus dedos por debaixo
da camisa do pijama que
grudou na sua pele feito mel
imagens que guardo para os suspiros
VI
incontáveis palavras
ecoando
com a sensação de que
eu adoro te escutar e
te ver movimentar os lábios
você é exímia comunicadora
(principalmente quando me beija estalado)
VII
24 horas passam como 6
e já quero ver multiplicado o
tempo que meu umbigo cola
no teu numa matemática
afetiva que nos desenrola
como o um que gera o dois quero dançar forró com você
VIII
quentão ficou meu coração
depois dessa ciranda linda
arrê, viva São João!
e a arte de cantar cantiga
ó, tua aura cor de mel brilha mais do que o sol
IX
tua voz doce
falando de outra voz
doce numa ode
aos sons que emergem do mar
A imaginação é uma jangada
(que me conduz a ti)
X
palavra cuspida é
palavra revelada
palavra escondida
é palavra-coágulo
sem caroços na garganta: vamos falar de amor
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