segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Eu fico pensando em vc enquanto vc não me responde a mensagem no instagram E fico pensando porque eu tô pensando em vc Mas eu não consigo explicar Eu sei que a gente flerta no instagram e eu gosto muito que vc venha me perguntar algo óbvio só pra gente continuar trocando mensagens ao longo dos dias Pra não perder esse flerte bom que não sabe se é flerte mas com certeza é Eu gosto da palavra flerte e da atividade que ela remete Todo um mistério um não sabido um será Uns olhares de propósito e uns assuntos de propósito e alguma sinceridade transbordando as 4 da manhã E aí é inevitável pensar em vc me pressionando contra a parede E em algum carinho após o sexo Eu sempre acabo conversando sobre a infância após o sexo É vc no mais aberto e juvenil que poderia ser Quando é sincero, claro E te deixa feito uma flor desabrochada No mais riso infantil que poderia ser E vc já tem esse riso mesmo sem sexo nem nada

atravesso o túnel

1
a memória do túnel me atravessa: eu lia um livro na janela e pensava tão aviadamente em estar lendo um livro na janela que a lembrança fez-se amarela como a luz do túnel na janela do ônibus eu lia um livro atravessando um túnel e depois outro para ir a faculdade agora é noite e a claridade do túnel me atravessa apenas uma vez aí eu viro a direita com o ônibus, subo a montanha cosme velho e desço até chegar na urca lendo poesia traduzida do polonês com um frio engraçado na barriga pensando estar num ônibus lendo um livro de poesia e olhando em volta e pensando estou aqui me sinto viva

2
ainda não encontrei clara a saga de ulisses continua num ônibus passando por sobre a ponte vendo a ilha com o terceiro olho onde uma mureta recosta nas margens da baía cheia de peixes e barcos e águas claras clara já está lá eu me atrasei a espera do ônibus reconheço o motorista que parece um monje tibetano a ilha mora dentro de mim enquanto não chega ao olhar do ônibus que antevê meu caminho antes de mim estou aqui nesse receptáculo ar condicionado e o monge parou e saltou pra tomar um café o tempo dele é outro criado nas montanhas e clara me espera e atravesso farmácias luminescentes e escrevo pra ver se o frio passa da barriga e chego na praia a ilha se aproxima da vista pirata do monge eu não gosto de me atrasar mas sempre trago um livro pra tornar a espera menos nervosa que assim esqueço de roer as unhas eu tento descobrir a filosofia oriental mas a vida na cidade me faz roer as unhas sem conseguir parar um dia eu chego lá por enquanto quero apenas chegar a clara e seu barquinho de papel de jornal 3
voltei num carro preto sobre o silêncio das rodas no asfalto andei a mesma rua, a mesma curva até chegar em casa pensei em como o outro é espelho que os olhos de bicho noturno de clara denunciavam seu sono sua exaustão mas de como persistiu contando-me de sua viagem pra são francisco e a vontade de afastar-se dos pais eu falei tempos sobre o i ching e coletivo seus putos eu falava de mim ela falava dela e eu não sabia o que havia no entre além dos olhares dos beijos e das baratas e claro da solitária garrafa de cerveja talvez nenhuma de nós esteja pronta para se apaixonar mas estamos as duas descobrindo a solidão do próprio corpo mesmo perto de outro corpo desconhecido abismal e pleno em sua (in)certeza indecifrável de oráculo 4
reservo à podridão os meus cheiros íntimos tenho uma dor no peito e uma tosse que me dizem que desaprendi a respirar clara falou em acupuntura e eu gostei mesmo da ideia

Você me penetra tão fundo 
que sinto  
como se chegasse  
nas minhas costelas, 
entrasse  
órgãos acima do ventre,  
indo  
além do músculo pulsante,  
chegando  
à parte dura do corpo,  
aquela que sustenta, e  
torna possível a respiração.  
  
Olho para você no escuro  
e fico maravilhada  
pela sua beleza de  
menino maduro.  

Penso que poderíamos ter 50 anos e teríamos o mesmo silêncio ritmado entre as palavras.  
Mas temos 20 e ainda não deixamos completamente a adolescência.  
No entanto,  
é uma sensualidade firme que você emana,  
como uma maçã pronta a ser colhida do pé.  

Entre as pausas concentradas
de um quase gozo,
o desejo cresce
minguando,
respirando fundo
pra retomar o fôlego
e começar novamente.

Penso poesia enquanto
toco seu rosto com meus cabelos
penso sempre poesia
você é sempre poesia
em doses ritmadas
de intensidade
você faz música com o corpo inteiro
e eu penso sempre poesia
você é todo poesia
da cabeça aos pés.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

TOSSE

como que um apito quebrado
engasgado na  traquéia

um rouco rouxinol apitando tragédia
traduz alguma saudade interrompida

teimosia indecifrável
essa de repetir-me em gesto tuberculoso

um escarro sempre por vir
como se escancarar fosse

o futuro das mandíbulas
sônambulas ossadas mudas

como se um câncer crescesse a olhos nus
diminuindo-se sempre para manter-se o mesmo

turvo turvo, menos que furo
o pulmão escuro de epicuro

está como que baleado
servindo de peneira às facas

frígidas que engulo
a intervalos de assobios

tranquei nalguma escápula
um sentimento afiado de perder

agora o ar que entra me escapa
e a perda consuma-se nesse

quase impulso de desapego
lúcido e trôpego

mas que ainda volta – refluxo
e revolta as costelas mal dobradas

impedindo o fluxo
melodioso dos oráculos 

tentaculosos obstáculos
minuciosamente articulados

por uma saúde aurática
deusa curandeira dos espaços vazios

que desobedecida implica
 o falecimento das funções

como se colocasse pedra na garganta
como se alfinetasse lenta os pulmões 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Dedos & Línguas  
sobre as flores do edredom 
Feito lagartos fugidios por entre a mata  
                                                                    Atlântica 
O sul do corpo 
                                                 esse mar de delícias 
Essa mancha em teu tornozelo: 
                                                     a América Latina 
Quente o sol sobre a nudez carnívora dos corpos 
Devorando-te de sol a sul            o azul             
Com a leveza esvoaçante da cortina 
Que nos arranca os tornozelos epiléticos 
E os devolve à língua mãe nativa    
Aquela que só o bico do  
          seio conhece: 


      Silêncio  


    atraves 

 sado de  



   Sa  
     li 
      va 

ARACNÍDEA

tesos fios 
fiordes maciços 
lírios 
  
tenros filhos 
de mãe fatal 
  
teia fatídica 
lírica 
  
trama a tarde 

uma transa 
afoita 
acidental 
  
torpe trêmulo  
tarântulo 
teme o tempo 
que inda tem 

sou parceira  
tramadeira 
trepadeira  
assassina 
  
minha picada  
apaixonada: 
flor faminta 
fina mordida 
  
tesão  
tensão 
  
sexo homicida