segunda-feira, 8 de maio de 2023

Uma luz clara 
entre as nuvens 
anuncia o novo dia
e com ela uma descoberta
ilumina toda a terra:

O perdão é possível.

Não falo de redenção,
de cruz e carrego, 
que isso é assunto 
pra quem crê em pecado.

O perdão é possível 
como uma luz clara
que suaviza a dureza 
dos erros passados...

Erros são sempre aprendizados.

O perdão é possível 
se reconhecemos que 
a vida é experimento,
tentativa e erro,
processo constante de 
autoconhecimento.

É possível o perdão
porque o amor é sempre
uma possibilidade.
Asilo e exílio
de nossa frágil
humanidade.

domingo, 7 de maio de 2023

É estranho 
O extra ninho
A confusão de plumas
Na tentativa do vôo 
O vivo vortex do tempo
Penetrando as entranhas

É estranho
Os rasantes do vento
As metamorfoses 
Silenciosas das vísceras
A memória cortante
Inebriante como o
Líquido dos sonhos

É estranho
O sem tamanho 
Do sentimento quando
Suspensa no ar
Todas as coisas pousadas
Dançam 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Embalada pelo ritmo melancólico 
de uma música dos anos 10,
inundada num oceano
de papéis de bala,
me sinto, 
por um instante,
uma ilha perdida 
na imensidão 
do quarto.

Engulo água salgada
com gosto de nostalgia:

A solidão da adolescência;
O desejo de ser encontrada
entre coisas perdidas,
coisas quebradas;
Ser vista, ser amada.

O anseio por aceitar
qualquer caco de atenção,
qualquer mensagem 
encriptada
deixada numa página 
de um blog,
esquecida na sua,
na minha boca
selada.

Mas emerjo das profundezas, 
respiro o frescor que me abraça
e me reconheço outra:

Bem acompanhada, 
envolvida por um amor
que me enxerga e me aceita,
que começa bem no centro
do meu corpo amadurecido,
enrugado de lágrimas
doces como cafuné,
mais apreciadas
que balas de café.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O peso das dores 
nos ombros dos dias
cravado nos músculos
das horas
aflitas 

Das cores, o cinza
crescendo no céu
da boca
até que a saliva
vire lágrima derretida

Os olhos: deserto
antevendo tempestade
acumulando oceanos
no dessalgar da idade

Irrompe a chuva
A água despenca
violenta
Lava as mágoas
cicatrizadas na pele
do tempo

O vento varre
as memórias turvas
O ventre esfria e dobra -
mesmo movimento 
quando ri ou chora

O duro das dores
amolece no dissolver 
das mágoas
E os dias amargos 
se esquecem no cair 
das horas


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Amanhece.
O cheiro de jasmin
roçando as águas do rio
levanta a aurora em mim.

Nasce no limiar da pele um arrepio
que alarga a claridade calma,
ao primeiro sinal dos assobios
rompendo a casca da manhã.

O mundo me respira, eu viro brisa,
vago crua pelos galhos, traço atalhos,
lanço os dados do dia que desponta.

Fome e fibra, o corpo voluptuoso da vida
devora os pensamentos arredios,
a carne das palavras cravadas no silêncio.

O som das crianças me carrega para onde quero ir...
Escuto a infância me chamar na crina da poesia
e desço os vales das primeiras horas
com a leveza do não saber que confia.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Sanguíneo 
o órgão pulsa
pirilampeando
na escuridão
do corpo.

Entre as sílabas roucas 
que me escapam
pelos poros:
endocarpos,
escápulas,
coração catártico.

No ritmo das perdas,
consolos, afagos,
dos lutos lentos
escorregando
pelas veias...

No bater incansável
do tambor vermelho,
a vida jorra 
desassombrando
a cegueira dos dias.

A vida navega
pacientemente 
pelas células
feito uma nau errante.

Neste mesmo instante,
a vida vaga 
desassossegada
pelos ossos, músculos,
pele inacabada.

Da ponta dos dedos
saltam
dançam
viajam
linhas coloridas
na imensidão 
do espaço.

Imersas,
as linhas atravessam
a atmosfera,
tocando
delicadamente
a matéria-mundo.

Matéria múltipla,
manifestada na multidão
dos corpos, 
na cadência
dos bumbos cósmicos.

Matéria viva,
vasta e profunda
que me toca:
o ar me penetra,
assola esse cisma
no meio do peito,

Bombeando
barcos, bichos,
linhas, rabiscos,
sustos, signos...

Vertiginosos arrepios
no arco de um respiro.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Há algo de caos no gozo:
Memórias;
Sismos;
Desvarios.

Há algo de cósmico no riso:
Um lance
de dados
no abismo.

Há algo de cômico no risco:
Seriam cócegas
nas costelas
do infinito?

Há algo de erótico em tudo isso...
Quando você vem
brincar comigo?

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Mais uma vez
sou ninada 
no colo do escuro.

Mais uma vez
sou gestada 
no abraço do inseguro.

Mais uma vez,
acolhida
por suas mãos enormes.

Mais uma vez,
moldada
por sua matéria informe.

Uma névoa que desce
das montanhas
ao anoitecer.

Tive medo de perder
meus contornos,
de esquecer o que sabia,
de sumir o que eu tocava
com a certeza dos meus dedos...

Mas agora que me entrego
ao útero do universo,
derramo minha angústia 
e meu silêncio fértil 
no pulso lento dos recomeços.

domingo, 15 de maio de 2022

Instruções para erotizar com a natureza

Despir-se para a luz do sol
Lábios sobre os lábios da terra
Suor & seiva
Abrir os poros para as carícias das folhas
Deitar e rolar com a relva
Gozar com a polifonia do crepúsculo 
Em comunhão com cigarras, grilos e aves
Depois murchar no solo
Deixar-se absorver pelo seu seio fértil 
Descansar no calor túmido das rochas 
Rebrotar na aurora, mansa e furiosa
Úmida como as lágrimas-orvalhos
Deixar o sol banhar mais uma vez
Seu corpo líquido, seu corpo líquen
Trasmutado em metamorfose verde

sábado, 17 de julho de 2021

Nadam como peixes
vacilantes numa piscina azul -
tão naturartificiais.

Se deixam levar pelas águas
em direção a uma misteriosa 
muralha de azulejos.

Caem,

Como peixes caem
no abismo do imenso oceano
que habita dentro 
de seus gélidos corpos.

sábado, 3 de julho de 2021

Hoje de manhã, o céu 
tinha um objeto assim parado, 
pousado sobre o ar estático. 
Não soube dizer o que era: 
se um balão, se um et de ressaca. 

Pela primeira vez em mais de ano 
desço as escadas para o subterrâneo. 
A música que toca é conhecida antiga, 
mas o barulho do metrô ao chegar na estação 
não me lembrava ser tão alto... 

Pareceu-me um bicho estranho, 
tão automático nos seus gestos. 
Será que ando assim como ele? 
Me conduzindo de um lado a outro 
sem me perguntar porque? 

Na Estácio, o bicho enche-se. 
Engole uma porção de gente 
com sua bocarra aberta de metal. 
As pessoas correm a buscar assento. 
Sentar-se é o último bombom da caixa.

Quem é que vai levá-lo? 
Quem sobrevive a esta cidade voraz, 
que multiplica a fome pelas beiradas, 
enquanto o centro se empanturra 
como um buraco sem fundo? 

Um estranho objeto paira no céu,
eu desço às profundezas da terra 
só pra descobrir que isso que chamamos normalidade 
é na verdade um ser indiscernível -
tão estranho e sem nexo que, 
para nossa conveniência,
não nos importamos em esquecer disso.