sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CAÇA-PALAVRAS (ou revolução solar)

s 
ó 
                                                    ú l c e r a   d o s  m e u s  c r i s t a i s 

S 
Ó 
Mais uma vez te deixo penetrar em meus aposentos úmidos,                  
Agora não te cabe mais canto nenhum de quarto. Trilho              
Itinerário de mandrágoras da minha cama à tua               
Sorte. E apago da trilha as migalhas de                    
Úlceras que deixaste de presente...                                
Muito gentil da sua parte                                                   
Amor, vá a merda                                                                              
Vá a merda, amor                                                                                        
E                                                                               só, me 
Zuni daqui                                               banho toda em sólre- 
                                                              torno ao centro do meu estômago 
Só o sól                                                                    corroído, e arrisco a 
Oráculo                                                                            sorte de estar 
Mais um vez                                                                         mais uma vez 
A ditar profecia                                                                                                
Intençãoparalisia                                                                                      só.   
Suando a minha sorte                            
Ungindo a minha morte                                    
Mais uma vez, a minha recusa...                                       
Antes de tu, tudo havia, e a minha repulsa,                                  
Vírus que implantaste, era sól, rá, osírismithra                                         
E 
Zaratustra 

sábado, 23 de setembro de 2017

Esta sensação que me ocupa 
É um prédio firme se erguendo do chão 
É navalha branca e estéril cortando sem não 
O dedo e o tempo que escapa do dedo 
Como a areia que cobre as praças 
Pequena amostra do deserto

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

a voz quando murcha dentro do seio,
quando não tem por onde escapar 
e fica retida ali antes da garganta, 
é como um berro que não tem som. 
é só a ideia do berro que sai. 
a minha boca cala e o meu corpo emudece, 
logo aqui onde eu devia gastar minhas palavras, 
virá-las de cabeça pra baixo 
pra ver se em alguma disposição elas fazem sentido. 
mas não. 
dentro do meu seio elas assumem uma negatividade estrangeira. 
e tento fingir um sorriso, 
mas me absorvo em meu silencio caduco. 
experimento a esperteza do toque dos meus dedos no anel. 
é porque às vezes eu sou assim absorta, 
eu calo, 
e logo agora que eu achava que começava a aprender a falar, 
como que extravasando as paredes e os limites do meu quarto, 
e essa conversa esquizo que eu me acostumei a ter com o espelho e os cadernos, 
falando sempre sozinha, 
deixando as palavras mofarem. 
dói agora um pouco elas aqui presas no meu seio 
como que sem importância, 
enfraquecidas. 
de que valem as palavras quando não ditas?
que sou eu se não as palavras que venho cultivando?
e cega, 
amnesia lúcida dos meus sonhos,  
tropeço nos olhares dos outros  
e me perco. 
outro dia ouvi que a poesia é maneira de organizar, 
e pois, estas palavras engolidas, 
(porém ainda minhas!) 
fermentando feito leite,
descobrem algum rumo na escrita, 
esse refúgio que encontro,  
como voltar pra casa e aninhar-se no colo de uma mãe sem nome. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Hoje falei seu nome sem querer

Viajo num avião por cima do oceano das imagens
que circulam feito doidas dentro da minha cabeça
Sua cara reaparece na rua no rosto de outras pessoas
mais velhas e mais novas
Faz tanto que não te vejo não sei mais como é seu cheiro
mas sei que se sentisse de novo era capaz de enlouquecer
Volto praquela noite na rede quando eu te vi pela primeira vez
e vc falou alguma coisa sobre neutral milk hotel
Nem consigo respirar entre as palavras que vão se alongando
além do meu dedo nervoso e a falsa calma que vc me trazia
E escrevo isso frenética com meus headphones
devidamente pousados sobre os meus ouvidos
só pra ter um pouco da loucura que ainda salvo com a memória
que ainda guarda um mel todo específico
uma vibe de foto analógica e de coisa que nunca existiu
Não quero mais mentir pro meu corpo tolo
por isso esqueço essas bobagens adolescentes de epifanias apaixonadas
e vou viver o amor denso e forte que vem crescendo no meu peito
que se oferece como maçã madura pra se colher do pé
Não aquele anseio pré maturo das não-palavras
do teu dente pequeno mas maior que a sua boca
Recupero esses momentos salivares porque sou saudosista por vocação
exalto a memória como parte constituinte da minha identidade trans-lúcida
e foi pois tão intenso na minha cabeça e nos pés e nos olhos que viam o céu
e os prédios em que vc apontava uma arquitetura meio comunista ou só o azul
que faço as minhas devidas preces, agradeço e deixo ir

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando a amplitude atinge minhas retinas
Dilatando minha pupilas viciadas
E encontro as coisas vibrando, imóveis
Meu pulso acelera
E fraquejo na vontade de ocupar todos os espaços ao mesmo tempo
                                     de perder o controle das pernas
                                     de ser o carro acelerado
                                                a estrada
                                                as estrelas
                                     de correr a 150 km/h
                                     de me jogar na frente de um carro só pra sentir o impacto
Então chego em casa dilatada
E preciso ouvir o som elétrico que sai do laptop
Pra ter qualquer arrepio na espinha
Ainda que meu corpo fadigue
Há uma pequena falta de ar entre
Uma respiração e outra

domingo, 30 de julho de 2017

Pensei em você dentro de mim
E gozei em dois segundos
1- Hoje quando levantei do silêncio e abri a persiana, o sol pousou sobre o parapeito da janela e eu pensei:
me envolve que hoje eu tô poesia
2- meus fios tesos
    meu tesão
    meu corpo crescendo dentro de mim
    a suspensão
    o fôlego
    a multiplicação
    a matemática...
    no ar, todos juntos, agora:
    sussurro.
para o Calvin

Criatura pequenina
Completamente descalça no mato
Entre vacas e jasmins
Perfumado de menino, nu na relva
Entre bois e alecrins

Esguio e firme caminha sob o sol
A força e fertilidade de um touro
A essência de um caracol
A delicadeza de uma libélula
Que paira parada - asas a mil - rente ao rio

Um sopro suave, um assobio
Sibilo nos ares, vagalumeando
Incandesce a floresta fermentando no frio
Passeia sem rumo, vagabundeando

Os verbos bem cultivados
No teu jardim de poeta
Colhe só frutos maturados
A flecha mirando a seta

Teus pés
Esguios
Firmes
Rudes

Tuas mãos de trovador
Tua pele é teu alaúde

Teu passo calmo
Teu olhar doce esverdeando
A tua própria selvageria
Pranteando, prateada
Iluminando de verde
A tudo e todos - amálgama das flores
Rubras, mel, rosáceas, além-pasto
Tantas outras cores...
Solto os cabelos
Há muito crescendo
(Esqueci-me de aparar as minhas beiradas
Deixando o mato apossar-se de minha terra
Fértil e lodosa)
Tranço nele o amor de minhas irmãs
Flores crescem na minha relva-pelos
Abro meus poros pro mundo
O todo - o amor de minhas irmãs - é uno

Ventre contrátil
Expando e contraio
O avesso do contrário
Que habita as infindaveis ondas sonoras
Ecoando de dentro pra fora
Do meu corpo

Deixo fluir sobre meu sangue
As gotas salgadas que engulo do mar
Aprendo a aceitar
As ondas que vem e depois vão
O contínuo movimentar-se
Rotação após rotação
Translação após translação
As estrelas me guiam
E sei que não ando só
Dorme no meu peito um mar calmo
As vezes agitado e revolto e nó
O oceano me penetra e não cabendo
Me transborda
Não podendo conter-se
Me assola
Me escapa e avança
Sobre as pedras
Sobre os muros
A força que emerge do meu ventre raivoso
A vaidade por entre os dentes é um rio sinuoso

Leva embora
Me dê trégua
Me carrega
Pro teu lar
Desemboca
Atravessa
Chora
Beijando o mar

Doce menino que acalento
Não sabes donde veio
Mas eu te digo:
Veio do quente
Do oco de dentro
Útero primevo
Tua casa
Teu sustento
Te alimento
Pra então te devorar
Cresce em mim, filho rebento
Junto das revoltas
Dos tormentos
Maremotos
Furacões
Fura mil corações
No teu caminho sem dó nem volta
Mas não olha pra trás
Que não mais estarei cá
Serei pó e a própria pá
Cavando na terra meu túmulo

Flores raras, banalíssimas
Hão de desabrochar
E então seguindo o baile da vida
Hão de se derramar no solo sem perdão
Regressus ad uterum
Caverna-corpo
Meu gozo tosco e sincero
Vale cada suor escorrido

Aprendo com os teus sorrisos
Ó bruxas: mães irmãs e avós
A brevidade da terra
A salinidade do mar
Os fios que crescem de mim
E me conectam a terra, ao mar
A ti, a nós, a mim
Mas sei e admito:
Ainda preciso aprender a orar

terça-feira, 20 de junho de 2017

otemponãopassa

já é claro
no fundo do céu
que amontoado de ventania
escapa do meu olhar
e te atinge em cheio
ossos boca pulmão
(a tua pele espessa)

eu estou cheia de ventania leve
como quem medita
e sente o cheiro da hortelã

dorme já em mim de madrugada
e já é claro
enquanto sonho novos alfabetos
que a tua presença se amacia
e toma forma sobre a minha superfície

superfície também é fundo
é céu espelhando mundo
escuro
escuro
claro
já é claro
um sol nascendo no meu peito
a luz atravessando meus órgãos

quero dançar a dança sideral dos órgãos
meu pâncreas colado no teu
trocando fluídos e espaços

O dia deitado
O corpo deitado e mole
As coisas que você escreveu e que eu gostei tanto de ler
Meu bem, quero te chamar de meu bem
Quero que sejas meu bem, tudo bem por você?
Eu nunca antes na minha vida
Conheci alguém que me dissesse que
Eu sou uma criatura marinha
Porque eu sinto que sou mesmo aquática
Eu me agarro a ideia do meu ascendente
Que é caranguejo
Que é mangue
Que é fundo do fundo do fundo
Veja bem eu ainda estou descobrindo a minha espiritualidade
A minha sexualidade brutal
Da onde eu vim e pra onde eu vou
Que sou eu, entende?
E eu gosto de astrologia
Tenho muitos planetas em aquário na casa sete
Meu nome tem sete letras
Assim como o dos meus irmãos
E foi de propósito
Eu acho que eu herdei essa coisa com o sete do meu pai
Porque eu nasci no dia sete do ano de mil novecentos e noventa e sete
Então não acho que essas coisas são por acaso
Eu acredito na sina
Eu gosto de missa fúnebre
De igreja barroca e de órgão
Eu gosto da voz da Maria Bethânia
Eu gosto do cabelo da Maria Bethânia
Eu gosto da Maria Bethânia
E do Caetano cantando asa branca
Eu gosto mesmo é de você, meu bem
Quando me mostra as coisas que você tem e as coisas que você faz
Do jeito que você fala
Eu já te olhava assim desde que você me mostrou seus desenhos na mesa do bosque quando a gente se conheceu
Você é o cavalo sossegado
O prato largo e fumegante
O prédio que eu vejo agora da janela do 439
A Tijuca inteira e seus casarões
O azul da parede e o verde da porta que eu estou vendo agora, meu bem!
Meu bem, você é tudo isso que eu olho e que já é parte de mim
Quero que entenda
O sol que me atravessa e suspende todos os carros e máquinas perdidas da cidade
Junto com a poeira no ar
Os barulhos e o tremelique do motor
Hoje quando acordei o jardim botânico estava coberto de lama
Eu nunca em toda a minha vida vi isso acontecer
É a terra tomando o que é seu
Um dia a terra vai invadir tudo e tomar tudo de novo pra si
Ou um meteoro vai cair e destruir tudo
A gente inventa de fazer represa e subir prédio de concreto mas é só pra fingir que não tem medo
No seu poema você diz que não tem medo de morrer
Não sei se é verdade mas eu acredito
E é por isso que eu te admiro
E te visto de todas as coisas que encontro no mundo