sábado, 17 de julho de 2021

Nadam como peixes
vacilantes numa piscina azul -
tão naturartificiais.

Se deixam levar pelas águas
em direção a uma misteriosa 
muralha de azulejos.

Caem,

Como peixes caem
no abismo do imenso oceano
que habita dentro 
de seus gélidos corpos.

sábado, 3 de julho de 2021

Hoje de manhã, o céu 
tinha um objeto assim parado, 
pousado sobre o ar estático. 
Não soube dizer o que era: 
se um balão, se um et de ressaca. 

Pela primeira vez em mais de ano 
desço as escadas para o subterrâneo. 
A música que toca é conhecida antiga, 
mas o barulho do metrô ao chegar na estação 
não me lembrava ser tão alto... 

Pareceu-me um bicho estranho, 
tão automático nos seus gestos. 
Será que ando assim como ele? 
Me conduzindo de um lado a outro 
sem me perguntar porque? 

Na Estácio, o bicho enche-se. 
Engole uma porção de gente 
com sua bocarra aberta de metal. 
As pessoas correm a buscar assento. 
Sentar-se é o último bombom da caixa.

Quem é que vai levá-lo? 
Quem sobrevive a esta cidade voraz, 
que multiplica a fome pelas beiradas, 
enquanto o centro se empanturra 
como um buraco sem fundo? 

Um estranho objeto paira no céu,
eu desço às profundezas da terra 
só pra descobrir que isso que chamamos normalidade 
é na verdade um ser indiscernível -
tão estranho e sem nexo que, 
para nossa conveniência,
não nos importamos em esquecer disso.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Poema escolhido entre os 10 vencedores do Prêmio Off Flip

Ode mínima à Hilda Hilst

Hilda,
Hilda,
Se me escutas do outro lado,
Dize-me de vento e alma:
Há poesia
ainda etérea
imaterial e viva
depois da morte tísica
do corpo?
Há desejo, há insanidades
poéticas, divinas?
Há bacanais, flautas, corças?
Ou a face de Deus é sóbria
lúcida lânguida lúgubre
como a poeira cósmica
dançando no parapeito da aurora?
Dize-me:
A Morte te tomou voluptuosa
Ferrugem esboçada
Funda, fina, rasa, tina?
Te carregou nos flancos,
rumo ao nada,
dulcíssima cavalinha?
E a Vida uns barcos bordados,
mosaico de teias,
fluxo claro de cores líquidas,
foi-te infinita a cada instante,
peixe rubro que és?
— Tomei e fui tomada
No abismo dessa antessala,
te procuro, te toco tácita
sem dedos, sem máscaras.
Te entrego em reverência,
Hilda,
Hilda,
estas palavras parcas
(ainda que trêmulas,
ainda que plácidas).

quarta-feira, 31 de março de 2021

árticos 
                                            longíquos
                    
                         aparecem 
                         
desaparecem 
                                                                         no horizonte:

    dançam com 
seus 
      quadris 
gelados
    seduzem meu
        olhar 
ávido
    por engolir a                     extensão                                 do mar.


árticos 
                                            longíquos
                    
       aparecem 
                             e 
                                     desaparecem 
                                                                         no horizonte:

                                    respiro sal
                           pelas narinas
                                   invento barcos
                            na boca vazia
                                            com a saliva
                                                 sonho ábacos
                                        planetários
                            na noite iluminada 
                                       de criaturas marinhas.             


árticos 
                                            longíquos
                    
            aparecem 
                         e 
                         desaparecem 
                                                                         no horizonte:

                                                                                                    corpo-nau-frágil:
                                                                                             me afogo 
                                                                                                            nos próprios 
                                                                                                suores          
                                                                                                        capturada pelo
                                                                                                                                ardil     
                                                                                                    dos dedos
                                                                                                                     em    
                                                                                                                             bal
                                                                                                                         bu
                                                                                                                                 cio.
                                                                                                                        


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

I.
uma
bolha
de 
sabão

voa

ave
ensaboada

II.
um estouro
um estalo
um estado ínfimo de coisas

explode 

no ar

III.
um brilho
no canto 
do olho

um som
no canto
de um pássaro

IV.
o pasmo 
pousa

leve 

num á
-timo

e passa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

notívaga

o escuro lumeia-me o vago olhar 
a escanear os escombros 
deste apagado quarto,
escondido sob a sombra
de um imenso barco,
esquecido,
encalhado
nas areias do tempo
que se esqueceu de cair
sobre nossos corpos
desérticos,
vastos,
esparramando-se 
sem fronteiras
no espaço...

secos, nossos dedos
não encontram nada
a não ser derivas,
sonhos desalumiados,
encardidos de esperas...
somente os olhos,
envidraçados e oblíquos,
perdidos nos tantos périplos
que não se deram 
em sabe-se quais mares,
guardam um resto,
um rastro longínquo, 
de umidade...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Corre
Corre, criança

Corre 
dentro do meu peito
Rufa os tambores do meu coração
Canta nele a sua alegria acesa
Dança nesta terra porosa que sou
Faz desse corpo seu instrumento

Corre 
Corre, criança

Em direção ao mar
Na crina do vento
Levada pelas águas 
que flutuam no horizonte
que já mora no seu olhar

Venta
Como faz o ar
Como faz o sopro 
que sai desta boca
em forma de palavra

Canta
a maravilha do mundo
com as suas palavras-flecha
Sonha
o destino do fogo
que incendeia seus pés e

Corre
Corre, criança

Pois chegou a hora
A brava hora
de voar em vermelho
Como fazem os pássaros
quando o sol detrás da montanha
diz que é tempo de voltar para casa

domingo, 6 de dezembro de 2020

rios ou ramos ou raízes
espalham 
sob a terra, sobre o ar
sendas, sulcos, rumos 

ritos ou restos ou rostos
esquecidos 
nas sobras da mesa
nas sombras dos fumos 

rastros ou ratos ou ruínas
escapam
das frestas, das arestas
do pó rente às brechas

da vida permeando em festa
os cantos, os contos, os cântaros
como rios ou ramos ou raízes...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

aos 18
descubro Radiohead, mas ao ouvir Creep
é como se eu fosse catapultada de volta
aos 13
aquele sofrimento brotando alienígena do meu íntimo
a primeira menstruação manchando a infância
eu sou um monstro, menos, eu sou um feto escroto
é o que escrevo no meu diário
aos 14
quando assito ao show do Roger Waters
e minha percepção de realidade é destruída a marretadas 
como o muro construído tijolo por tijolo no Engenhão
para ser então reconstruída sobre a dúvida
os pensamentos derretendo ao som de Dark Side of the Moon
aos 17
numa sala vazia, encostada sobre a parede branca
o corpo escorregando
aos 18
noutra sala, deitada no chão
hipotizada pelas luzes neon
que brilham formando padrões no teto
o seu rosto me enfeitiçando do outro lado do cômodo
o seu corpo grudado no meu numa cama de solteiro às 7 da manhã
e Kid A tocando na sua vitrola, mas é só
aos 21
que assisto o Thom Yorke ao vivo
e tenho a impressão de que ele é um peixe 
dançando sem ossos e eu um aquário vazio de ar
você está lá naquele cardume em algum lugar
mas a essa altura eu já desisti de te procurar.

domingo, 15 de novembro de 2020

minha barriga é um vaso
um vaso de terra fértil
gestando minhocas

minha barriga é um mar
um mar de lombrigas
dançando famintas

minha barriga é o sono
o sono de raízes
fermentando a fúria

minha barriga é um caldeirão
um caldeirão de bruxa
amalgamando a cura

minha barriga à esquerda 
da minha costela direita

minha barriga à direita
da minha costela esquerda

é um samba de líquidos
equilibrando tormentas